Escurecia e o playground na praia estava inabitado. A sombra dos brinquedos refletida na areia pela luz da lua. Haveria um pezinho de sandália, uma pá enterrada, uma mamadeira, sinais da passagem das crianças por ali. Diariamente, debaixo do sol carioca e sob os olhares modorrentos de pais e babás, as crianças escalam degraus, escorregam em rampas coloridas, balançam-se, erguem castelos, abrem buracos. Corpinhos bronzeados, cabeças suadas, risadas, choros, gritos atravessando o ar quente, areia voando na gaiola a céu aberto. Mas não àquela hora. Àquela hora, o parquinho era uma estrutura erguida no deserto. Esvaziada de sentido. Fantasmagórica.

E então, brilhando no escuro, surgiram as meninas albinas. Duas irmãs ainda pequenas, branquíssimos os cabelos, pelos, cílios e sobrancelhas, rosada pele, olhos de bolinha de gude, fadinhas esculpidas em delicada porcelana.

Vinham com a mãe e assim que soltaram-se dela, correram para os brinquedos, significando o vazio, reacendendo o lugar. Como se uma luz emanasse de seus corpinhos, as irmãs albinas cintilavam na noite quente. Saltitavam descalças chacoalhando as alvas cabeleiras encaracoladas, espuma do mar, indo e vindo, entre risadas, suor e areia, divertidas como as do dia, as criaturas noturnas.

A um chamado, voltaram o olhar translúcido para o calçadão onde a mãe esperava ao lado do pipoqueiro, ele também vagalume, o carrinho aceso, enchendo os saquinhos de pipoca doce, cor de rosa, encantada, pigmentando tudo. Agora, a lua baixa alcançando o mar, a volta para casa e o sono das meninas que não podem dormir.