Depois de ler o material, o experiente editor fez a recomendação:”Escreva alguma coisa na linha da autoajuda. Vende melhor. Os textos têm que ter utilidade, entende? Ninguém mais tem tempo para ler histórias engraçadinhas.” Saí frustrada da reunião pensando no enorme tempo perdido com minhas crônicas inúteis. Estava experimentando o pesadelo do jornalista que decide escrever ficção, que deixa de cumprir seu dever cívico para se distrair com mentiras sinceras, que passa para o outro lado do balcão. Uma alma vendida. Aceitei o veredicto dele e minha natureza barroca de mineira católica reconheceu a sombra dos rococós talhados no espírito culpado, o pecado do prazer pelo prazer.”Tem que ter utilidade, entende?”
Havia na sugestão dele o desafio de auto ajudar as pessoas através de histórias recheadas, imaginei, de sabedoria. Logo eu, que choro comprando passagem aérea errada pela internet, que me meti em casamentos e empregos sem sucesso, que vivo atrás de consertar confusões provocadas por mim mesma, que tomo caldo no raso. Com que autoridade uma pessoa que se auto destrói diariamente em percursos errados pela cidade, discussões estéreis por motivos banais, decisões equivocadas com pequenas e grandes implicações, pode apontar caminhos para os outros? Imaginei meu livro na prateleira da categoria ao lado dos best-sellers em que os autores indicam destemidamente aos leitores como devem administrar suas vidas.
Além da coragem, me falta otimismo para convencer os outros de que os esforços positivos e repetidos valem a pena. Apesar do temperamento alegre e irreverente, tenho vocação para a morbidez e idéia fixa com a tragédia humana, com o enorme sofrimento de nos mantermos vivos sabendo que a morte nos espreita. E aqui repito o que o Otto Lara Rezende um dia definiu, como sempre, tão bem: “A morte é a única coisa absolutamente insubornável. Só ela é universal, democrática, pessoal, secreta e intransferível. Virá como um ladrão”. Sou filha, irmã, mãe, esposa e tenho muitos bons amigos que contam, no mínimo, com a delicadeza da minha presença produtiva nas suas vidas.Estou, portanto, impossibilitada de exercer a depressão com a intensidade e na extensão que ela pede, mas isso não impede que eu tenha consciência da nossa finitude  e de que todo esse nosso empenho prático e espiritual para justificar a existência é inútil.
Autoajuda não é uma opção literária para mim. Ainda que venda. Ainda que tenha mais serventia. Tenho que admitir que não sou modelo e não tenho um conselho, nem uma indicação, um método ou um exercício que melhore a vida de ninguém. Desconfio que minhas filhas saibam disso e que talvez, intuitivamente, façam uma leitura às avessas do meu exemplo, aprendendo com meus tropeções e tombos. Olha o meu joelho. Nunca escondi as marcas.