Fui ter com o amigo, escritor de renome, e arrisquei dizer que andava pensando em, talvez, escrever um livro. Respondeu sem levantar os olhos do computador: Mas não é autobiográfico, é? Todo mundo acha que a sua vida dá um livro. Para mim, isso é preguiça. Menti que nem havia me passado pela cabeça essa vaidade, imagine, estava justamente pesquisando a história de uma família em viagem pelas tundras gélidas da Sibéria quando foi atacada por gigantescas plantas carnívoras que a devorou aos bocados, roupa, sapato, mochilas e tudo. Sobrou uma criança, autora do relato duvidoso. Ah, sensacional! Isso, sim, dá um romance e tanto! Estava agora olhos nos olhos comigo, dois escritores num momento de cumplicidade. Tentei acompanhar o seu entusiasmo disfarçando um sorriso num movimento muscular forçado até doer o rosto. Evoluímos no roteiro da tragédia, ele sugerindo situações do banquete humano para torná-lo mais apetitoso. Disse isso e riu da própria piada. Quase me convenci ali de que, ficção por ficção, a história da família dizimada era melhor do que a minha que nunca teria gente engolida e, longe do cenário exótico siberiano, se passaria basicamente numa cidadezinha pacata de Minas Gerais. Depois, para ser franca, deu preguiça mesmo. Não há movimento sem curiosidade. Não consegui digitar mais do que um parágrafo sobre o assunto e voltei a atenção para os meus pés embaixo da mesa. Quando eles saltitam é sinal de excitação. Sou um jabuti. Carrego minha vida nas costas e conheço o seu peso, paro no momento que quiser, pesquiso para além do meu casco porque viver não é suficiente, e escrevo.