Vinham em silencio no carro, pai, mãe e filho, e foi quando de um tranco surgiu o cachorro. Não deu tempo de nada. O bicho atravessou a rua em disparada como se fugindo ou perseguindo, sem atenção ou interesse noutra coisa que não alcançar o que procurava. Não gritou. Ficou imóvel sangrando. Desceram do carro assustados, tocaram de leve o corpo e correram a pedir ajuda para o cachorro de pelo curto, branco e cinza, de uma raça que até hoje, pelo peso da culpa, tratam de não conhecer. Desorientados, foram a uma oficina mecânica, a uma padaria, à casa lotérica, não conseguiram socorro a tempo. O animal foi a óbito ali mesmo junto do pneu ainda quente. Recolheram-no e seguiram sem dizer nada, o bicho estendido ao lado do filho no banco de trás. O canavial da pequena cidade acompanhando o trajeto tinha um apelo aberto e escondido. Abriram uma cova, cobriram-na e partiram com o peito apertado, mas já concluindo que atropelar um cachorro era melhor do que atropelar uma pessoa, que o cachorro tinha se suicidado ele mesmo, que Deus é que escolhe hora e lugar para chamar companhia. Na manhã seguinte, a mãe no supermercado comprando Qboa e um cartaz em papel sulfite pregado na entrada com a foto do cachorro e o nome que lhe pareceu acertado: BIDU. Chegou perto, anunciavam o sumiço e ofereciam recompensa para quem soubesse do paradeiro daquele que era “como um filho para a viúva solitária”. Voltou para casa apressada sem a Qboa para dividir a notícia com a família. Não fariam nada até segunda ordem. Um grupo de quase 30 pessoas já tinha se organizado na internet e trocava informações contraditórias sobre o sumiço do cachorro. Um jurava tê-lo visto na cidade ao lado, o outro suspeitava de um vizinho com cachorro novo nas cores do Bidu, um terceiro lembrou que a carrocinha circulava incógnita na periferia a recolher cachorro para fazer sabão. Os possíveis culpados amaldiçoados em comentários raivosos. Solidária, a radio repetia o pedido da viúva de ter seu companheiro de volta “a qualquer preço, dentro das suas possibilidades.“ Alguém anunciou que o Bidu teria aparecido em Goiânia. Boato falso. A família recolhida dentro de casa pressentia uma invasão de cidadãos enfurecidos. Sonhavam com o cachorro morto, com a viúva doente, com urubus sobrevoando a casa a entregar os criminosos. Cartazes se multiplicando em postes e muros da cidade. Já não tinha volta. Já não podiam ser os inocentes atropeladores de um mártir. Não comentaram o assunto no almoço, no jantar, no café da manhã. Bidu nunca mais.