Escalada para entrevistar Tom Jobim em Nova York, fui ter com ele sentado ao piano de cauda no Hotel Plaza. Tocou, cantou, conversou ajeitando atrás da orelha o cabelo que insistia em lhe cair sobre os olhos. Depois me convidou para almoçar ali mesmo no secular Oak Bar. 
Bebemos um tanto, comemos quase nada, e dessas coisas que só profissional entende, ele quis mudar de chopp. Mr Jobim era cortejado pelos maitres dos principais bares e restaurantes de Manhattan e fomos atendidos como reis. Seguimos assim, de chopp em chopp, o que não era fácil em Nova York, até escurecer. Apoiada no braço dele, lindão, vestindo um longo casaco preto de lã e cachecol vermelho, eu ia pensando, “Puxa vida, nessa hora não encontro nenhum conhecido! Se estivesse fazendo alguma coisa errada seria flagrada no ato!”
A certa altura, confortável na mesa de um bar e autorizada pelo álcool, me queixei de uma frustração antiga, que minha voz não era boa, que eu não era afinada. Tom então, galante e gentil, me incentivou a cantar para ele no que foi prontamente atendido. Abri com Águas de Março passei por Garota de Ipanema e encerrei, já confiante, com o Samba De Uma Nota Só. Quando enalteceu minha performance dizendo que eu poderia cantar para ele a vida inteira, exigi que fosse por escrito e meti a mão trôpega na bolsa sacando um pedaço de papel qualquer. Havia pouca luz e minha capacidade de foco estava reduzida. Agradeci quando escreveu umas linhas e assinou. E seguimos para casa, já noite, rever as nossas Luisas. Eu também tinha uma pequena na época.
No dia seguinte, encontrei o papelzinho amassado na bolsa com o aval de Tom Jobim para soltar a voz. Para minha surpresa e desgosto, era o mesmo papel, um guardanapo, onde numa situação inusitada outro ídolo, Muhammad Ali, havia carinhosamente desenhado um coração com nossos nomes dentro: Muhammad Ali x Marina.
Assim, tenho em casa as mensagens generosas, sobrepostas e quase indecifráveis, de dois grandes homens, certificando uma história da qual sou a única testemunha.