A amiga, fotógrafa oficial de eventos da comunidade judaica hassídica, de Nova York, fez o convite que há muito eu esperava e nos levou, eu e minha filha, como assistentes num casamento no Brooklin.
Nevava naquela noite, desci do carro, escorreguei no chão congelado do estacionamento e caí de joelhos. Voou a escadinha que ela usa para fazer as fotos do alto, acima dos chapéus de pelo pretos usados pelos homens durante a cerimonia. Segui manquitolando, um frio de lascar, na escuridão e no silencio do bairro, ela puxando um carrinho com o resto do equipamento num passo apertado e decidido. Não é tarefa para qualquer um. Os casamentos atravessam a noite e ela só recolhe as traquitanas depois que o ultimo convidado sai. É judia, nada ortodoxa, mas conhece todas as regras e excessões, os ângulos permitidos, os não autorizados por essa comunidade ultra-conservadora. De vez em quando, avança o sinal e arrisca uma bela foto de algum detalhe emocionante, curioso e proibido. A mãe preparando a filha para a cerimonia, a menina com as mãos branquíssimas sobrepostas. Um registro que vale a trabalheira oficial. Apresentamos-nos na entrada do salão, as duas mal ajambradas em uniforme de guerra, paramentadas de preto da cabeça aos pés. A autoridade à porta, barba e cachinhos nas costeletas, ortodoxamente vestida com chapéu e casaco longo pretos e o talim, um xale religioso com tzitzit, as franjas nas pontas, olhou feio como se desconfiando acertadamente das nossas origens e intenções. Ela atravessou a hierarquia masculina e e entramos.
O enorme salão dividido por um longo biombo, um lado para as mulheres, outro para os homens. Do lado de cá, onde ficamos, mesas decoradas esparramadas nas laterais, dezenas de crianças correndo e um estacionamento de carrinhos de bebê com os bebês dentro. O lado de lá, onde homens que me pareciam gêmeos entre si, cantavam e dançavam abraçados. A gente espiava por uma fresta que as convidadas tinham aberto e onde se divertiam como crianças fazendo coisa errada.
Seguimos com dificuldade as instruções técnicas carregando por toda parte a escada e um mastro com a luz, tentando ser discretas em nossos trajes camuflados e não sendo. Trocamos olhares de viés. A amiga circulava desenvolta, montando grupos, atendendo pedidos para registrar um ou outro familiar, ela também personagem da cena. Atravessar o ritual era mergulhar num mundo fantástico, vindo de outros tempos, parado nesse tempo.
A adolescente proibida de sacar o celular. O que acontece ali, fica ali. Eu queria fotografar na memória cada instante da cerimonia emocionante e, de certa forma, triste. Uma noiva menina, escolhida pelas famílias, mal conhecendo o noivo, seguindo obediente o curso previsto pela religião. Cobrir-se respeitosamente até os pés, cortar o cabelo, usar uma peruca com um lenço por cima, ter muitos filhos e não se interessar pelo que acontece fora da comunidade. Chegou a sua vez. Iluminando o ambiente escurecido pelas roupas dos convidados, ela surge frágil, imaculadamente vestida de branco, véu sobre o rosto, as mãos claríssimas de uma vida na sombra tocadas pela primeira vez pelo noivo.
Na volta, o carro sambando no gelo, a musica no radio acompanhando o ritmo, eu fechada em silencio, profundamente perturbada pela experiência. A amiga checa as mensagens no celular e suspira: amanhã tenho outro, acho que nem vou tirar o equipamento do carro.