Minha mãe já tinha feito a observação de que estou emburrecendo quando não respondi de pronto uma pergunta dela. Vindo dos rigores da minha mãe, tendo sido criada por ela, a crítica não incomodou. Fiz uma malcriação, corri para acertar a resposta, ela nem ouviu e estava resolvida a questão. Agora, não muito tempo depois, alguém comenta sem fazer alarde que o cérebro das pessoas encolhe com o tempo, o da população como um todo, não apenas o das mulheres como poderia sugerir a piada. Não há uma idade certa para que isso aconteça, com o correr dos anos, já não usamos todas as células do cérebro e ele vai diminuindo. As dezenas de perguntas sobre os detalhes dessa maldição genética ele não sabia responder e nem estava interessado, aceitava os desmandos da natureza humana. Saí como louca usando as poucas células que me restavam para escrever listas com informações importantes, datas de aniversários, contas a pagar, textos de gaveta, receitas, para que quando a coisa apertasse eu pudesse, pelo menos, rever a lista e seguir com a vida em dia. Burra, mas cumpridora. Consultando especialistas em sites na internet, entendi que passamos a usar menos células do cérebro e as sedentárias vão se acomodando até não terem mais serventia. Vamos ficando mais seletivos com o que absorvemos, encostamos informações inúteis que só aceleram os pensamentos num fliperama mental e trabalhamos apenas com o essencial. O cérebro, ressentido, então se vinga encolhendo. Além das listas, tentei colocar num texto minha ultimas palavras inteligentes, as que selecionei entre milhares de supérfluas, as que ainda cabem no meu cérebro retraindo-se acelerado. Sob pressão, cada minuto perdido uma célula a menos, a voz da minha mãe abrindo caminho, não consegui desenvolver nada interessante, estava fadada a conviver com o que as células julgassem útil. E se eu não concordasse? E aí uma idéia me reconfortou. A de que eu poderia pensar firme, incessantemente, em coisas consideradas importantes para quem gosta de bicho, de mar e rio, de gente excepcionalmente simples, de criança brincando, de futebol. E guardando essas informações na cabeça, sem deixás-las escapar, eu teria selecionado a porção realmente útil para me sobrar no cérebro.