Sem se preocupar com a hora nem com o que tinha que fazer, a salada pingando dentro da pia, ficou a olhar os desenhos que evoluíam na enorme tela azul emoldurada pela janela. As formas surgiam lentamente, desobrigadas de qualquer finalidade, espreguiçando-se, esticando-se e encolhendo-se, desdobrando-se arredondamente nas pinceladas do vento. Isso foi o que de certa forma provocou seu afeto. Cansada de situações pontiagudas e gentes duras, buscava acolhimento e agora o encontrava nas curvas macias e inexatas das nuvens. Ela também bunda, peitos, cintura e coxas. Sentia-se parte do movimento grandioso, tudo mexendo-se, o céu sendo o tudo sem se mexer e ela, as nuvens e o vento fazendo o que bem quisessem, plenos de desejo e expressão. A liberdade ao quadrado na esquadria da janela. Apoiou as mãos no mármore a avançou com o corpo num gesto inútil de aproximação, levando a sério a vontade de ser mutável e de perder-se em formas variadas sem prestar contas a ninguém nem terminar de lavar a salada. Queria sair pela janela e saiu. Foi nuvem pensando em nada mais do que o sensual desdobrar-se feminino, na delícia do abrir-se para tudo, cabendo tudo, os proibidos, os sonhados, os esquecidos. Soltou um pouquinho os pés nas sandálias querendo desproteção. E chegou perto da contraditória sensação do prazer egoísta, solitário, humano, único. Nascido nela e para ela. A janela aberta. O céu, os pensamentos, a alma em movimento. Tocou o intangível. Podia tudo. Sentiu o azul atravessado. Mas, ái, os gostos e cheiros cozinhando em fogo médio, sem pressa e no tempo certo, destampados em pequeninas nuvens de vapor na cozinha fria, azulejos, piso e metal. O almoço.