A amiga trabalhou com Danuza Leão no JB e tinha boas lembranças daquele tempo tão carioca, no sentido efervescente, da cidade. O sotaque do Rio ecoava no país inteiro. Da amizade entre as duas, ficou uma saia indiana longa, de puro algodão bordado e tingido em cores quentes, lindíssima e chiquérrima, adjetivos que a gente só usa para falar de Danuza, presente que a musa tirou do corpo e deu a ela. Diante do meu entusiasmo, a amiga, então, repetindo o gesto, passou a saia para mim. Saí eufórica com a peça nas mãos, sem saber se vestia ou se pendurava na parede, se a erguia num mastro feito uma bandeira. Foi temporariamente para o cabide. De quando em quando, eu a estendia nos braços e sofria com as possibilidades. Não tenho altura nem personalidade para envergar uma roupa de Danuza Leão, mas aquele tesouro não podia ficar enterrado no armário. A saia tinha história. O que não aconteceu de verdade, tratei de imaginar. Danuza de sandália baixa, mil pulseiras coloridas, longos brincos de princesa, lânguida, arrastando a saia indiana falsamente despojada pelas calçadas do Rio a caminho do boteco mais charmoso de Ipanema, onde todo mundo mundo sabia quem era ela, todo mundo queria ser ela, queria estar com ela. Eu não seria uma versão encolhida, mineira e anônima de Danuza Leão. Então, tomei coragem e enfrentei o sacrilégio que toda mulher em algum momento experimenta. Com uma tesoura, fui pecando pelas bordas, saboreando o desconstruir do sagrado, abrindo as costuras cheia de prazer e excitação até a saia virar um tecido disforme, pronta para assumir qualquer função nessa vida, uma toalha, uma blusa, uma bolsa. Precisei da cumplicidade da minha habilidosa irmã, Luciana, para a segunda etapa da operação. Na fazenda, em Guaxupé, indiferente à India e ao Rio, ela costurou almofadas étnicas, que agora enfeitam o sofá e, caipira que sou, cada vez que alguém vem visitar, fico controlando a situação até não aguentar mais e pedir, por favor, dá para desencostar da saia de Danuza Leão?