Uma manhã, o gato apareceu no jardim. Branco, pelo curto, rabo em pé antenado para as novidades da situação. Atravessava o gramado naquele andar felino elegante, carregado de independencia e soberania, e  subitamente parou, pressentindo, preparando-se para a sobrenaturalidade do viria a acontecer. Menos instinto do que predestinação, seus olhares se cruzaram. A menina, recém acordada, nenhuma palavra ainda, camisolinha amassada, pé com meia, pé sem meia, estendeu o pesadelo com o monstro do sono até ali. O gato e o dragão. O sol iluminou o corpo miúdo sem asas e ela apaziguou-se com a impossibilidade de um ataque feroz, quase entendendo a metáfora. Pelos olhos dela, fio desencapado de emoção, o bicho experimentou um encontro ancestral e desacelerou também o seu coração. Amar é reconhecer -se no outro. Virou a cabeça lentamente observando os pássaros na trepadeira, o muro que o trouxe até ali. Desejou um deles na boca. Penas e sangue. Os pézinhos dela, patas curiosas, quiseram se aproximar e já dona do que não lhe pertencia, estendeu o pão com manteiga. O silencio dizia que sim. Cheirou e, no pão, sentiu a menina. Não havia mais lugar para arrependimentos. Um encontro de outras vidas, sete outras, de referências distintas, cheiros, gostos, Egitos antigos, quintais, jardins, memórias passadas, antepassadas, agora reencarnadas na pele, no pelo. Tinham fomes, caçavam e se buscavam. Tirou delicadamente a coleira dele, examinou, jogou longe. Na não territorialidade se pertenceriam.