Quando começamos numa agência de publicidade japonesa, meu chefe advertiu: são japoneses de verdade, não os interrompa quando estiverem falando, não deboche das regras e, sobretudo, não fique tocando neles. Foi como se tivesse me dado uma ordem para fazer as três coisas. Às vezes, simultaneamente. Era avistar um colega japonês, tão distinto, tão silencioso e me dava um comichão, não podia me segurar. Cumprimentava beijando e abraçando, amassando seus ternos e vestidos impecáveis. Fazia uma pergunta e à menor menção dele responder, emendava um comentário e outra pergunta em cima e já ia respondendo como se não precisasse nem ter perguntado. A reação era de desgosto educado. Numa visita ao escritório em Tóquio, vi dezenas de cartazes com o desenho de duas pessoas de perfil com as bocas abertas e a orientação, traduzida por um funcionário local: Conversem entre vocês! Uma campanha para que o ambiente da firma fosse mais interativo. Pedi para levar como prova de defesa das acusações de irreverência corporativa e já ia arrancando da parede, ele sorriu amável e respondeu monossilábico: Não.
Ao contrário do que se poderia esperar, o tempo não flexibilizou as nossas relações e até o fim seguimos, eu avançando o sinal e eles firmes no seu quadrado. Me lembrei disso esses dias. Um metro pode ser pouco, mas pode ser tanto!