Depois de anos de trabalho exaustivo tentando parecer equilibrada e saudável para a terapeuta e creditando o fato de não ter alta à dependência dela à minha hipnotizante personalidade, nos cruzamos por acaso ontem no teatro. Tenho inveja do carioca que divide com naturalidade a praia com o dentista e o boteco com o professor do filho. Sou de quatro paredes. Encontrar o analista fora do consultório, numa situação informal, é uma experiência aterrorizante. Você é pego desarmado, sem filtro, sem discurso para se defender. Não tive tempo de preparar o personagem. Achei que atrás dela surgiriam homens de branco com a seringa e a camisa de força. Sorri nervosa. No escuro, cumprimentei-a e à loira ao lado dela com um beijo e um abraço exagerados. A moça, uniformizada, me olhou com pena: Não estou com ela. Eu trabalho aqui no teatro.