Dessas coisas que a gente acha que faz sem querer, estiquei o braço na estante de casa e pesquei um livro há anos disfarçado de livro lido. Como a capa é muito bonita, meus olhos podem tê-lo fisgado. O nome, What the Body Remembers, escrito por  Shauna Singh Baldwin, é também muito atraente e outras partes minhas devem ter atuado naquele momento. Mas o que se passa ali dentro só meu coração poderia intuir e querer.
Na India/ Paquistão de 1937, a menina pobre de 16 anos, torna-se a segunda esposa de um sikh, rico proprietário de terras. A primeira esposa, uma “senhora” de cerca de 40 anos, não conseguiu dar filhos a ele e pelas regras locais, uma nova mulher cumprirá esse papel, embora os filhos sejam criados pela primeira.
Pelas mãos de mulheres que circulam e falam sem parar, entramos no gigantesco palácio, iluminado pelo sol, assombrado pelo vento, perfumado pelas especiarias e colorido pelos tecidos indianos, onde cada esposa sofre a parte que lhe cabe no processo de rejeição e renúncia da irreversível vida a três.
A mais velha, preterida fisicamente, luta com todas as armas para manter seu lugar na sociedade e, sobretudo, no coração do marido. Responsável pela casa, aprecia os sabores da cozinha, os encantos da vida doméstica, supervisiona com rigor o desempenho dos empregados, recebe convidados ao lado do marido. Com ela, aprendemos que a ervas são espiãs e podem nos contar os segredos das pessoas. Depois de oferecer longos banquetes a homens poderosos, o marido pedia a ela que traduzisse as reais intenções de cada um deles e ouvia a leitura não muito imparcial que a esposa fazia desses convidados.
De outro lado, a menina de olhos e cabelos negros, é doce, frágil, carente e quer ser amada a qualquer custo. Descrita com sensualidade contagiante pela rival, “quando solta o cabelo, um rio escuro desce o vale de suas costas” e “o cor de rosa forte de seus interiores é a tinta viva pintando o prazer.” Tem saudades de casa, sente-se sozinha, desprezada pela concorrente, usada pelo marido e angustiada por ter que abrir mão dos filhos que eventualmente parirá. Ingênua, não entende porque seu corpo perfeito é objeto de tanta ansiedade.
A época é de tensão social provocada por disputas entre hindus, muçulmanos e sikhs e pelas mudanças que os ingleses causaram ao deixar a colonia e dividir o território entre India e Paquistão. Deliciosas discussões políticas, religiosas e culturais aproximam o primeiro casal. A primeira esposa é uma mulher inteligente, de personalidade marcante, empenhada na briga contra a invasão cultural inglesa, companheira de todas as horas. Como no ocidente, essas qualidades não são suficientes para que ela seja a única na vida do marido. Na disputa com a menina, que já herdou suas melhores roupas e jóias, perde o olhar desejoso e as noites de sexo e carinho com ele.
Muitas vezes tive que colocar  o livro de lado tanto me doía a luta dessas mulheres solitárias competindo pela atenção do homem. Tive pena de mim mesma e do meu esforço incansável para ser desejada, amada, única. Mulher Maravilha, capaz de prover tudo o que um homem precisa e deseja. Entristeceu-me pensar que vivemos uma fantasia mentirosa e infantil que cobra o melhor de nós e nos devolve frustração. Tive inveja dos homens, não porque se permitem mais, mas porque se satisfazem com menos.