Me convidou e não sei dizer não. Nos encaminhamos suados, em roupas de corrida, até o Quiosque da Saúde, uma tenda armada no Ibirapuera pela turma da prefeitura. Além de checar a pressão, diabetes e outras preocupações de idosos frequentadores do parque, oferecia um curso rápido de socorro à vítimas de uma parada cardíaca. Não se interessou pela avaliação clínica, queria salvar vidas. Saí da fila do monitoramento. A sombra gratuita contra o céu azul num calor infernal era, inegavelmente, sedutora. A enfermeira Danyelle, com y e dois ll no crachá, fazendo jus ao estereótipo, só não usava uniforme decotado e curto: era loira, bonita, gostosa e atenciosa. Ladeada por outras duas mais fora de forma, que teatralizavam as caretas e contrações da vítima, repetiu os procedimentos, passo a passo, diversas vezes, sem pressa, cobrando feedback do grupo. Se ele parece não estar respirando fazemos o que? Cerca de dez pessoas de todas as idades e sexos, ajoelhadas em colchonetes em frente aos bonecos de borracha partidos ao meio. Do umbigo para baixo não importa numa parada cardíaca, aprendemos. Demontrou como usar um desfibrilador para uma platéia descrente de encontrar o aparelho, obrigatório num local publico. Fizemos mais exercício pressionando o peito dos bonecos do que em qualquer equipamento de academia. Cento e vinte vezes e mais outra série de 120 compressões manuais ininterruptas sob pena de matar a vítima se perdêssemos o ritmo. Com força: mais importante bombear o coração do que manter uma costela. A mulher ao lado queria saber sobre respiração boca a boca. Está fora de moda, não se usa mais, quem diria! Meu pé dormiu. Levantei-me com dor nas costas, os joelhos e as mãos vermelhas, o boneco imóvel. Há outras funções para os socorristas maus fora de forma. Posso, por exemplo, afastar curiosos da cena. Ou ligar para o SAMU agora que decorei o número 192. Muito eficiente a enfermeira Danyelle.