Dona Costura trabalha aqui?, fiz a piada com a plaquinha na entrada da loja. Trabalha, sim. Pera que eu vou chamar. Ô Costura, vem que tem cliente! Desfilando em traje típico, fita métrica pendurada no pescoço e óculos na ponta do nariz, almofada de alfinetes no pulso, chinelo com meia curta, ela surge de dentro da escuridão do que parece ser o depósito. A dona ou gerente do lugar, uma loira bem arrumada e algum exagero na maquiagem, sai de perto como se quisesse não ter nada a ver com o que se passa naquele canto onde se conserta roupa imperfeita. Nas vitrines dela, impecáveis modelos de gosto duvidoso. Abro a sacolinha de papel e retiro três camisolas compradas num comprimento para mulheres mais altas do que eu. Aquilo andava me incomodando um tanto pela estética mas, sobretudo, porque sendo longas, elas enroscam nas pernas e nem sobem nem descem, ficam feito canga molhada na volta da praia. A loira espiou com o rabo do olho. Dona Costura, nascida Izilda, me contou quando ganhamos intimidade, estendeu uma a uma sobre o balcão, elogiou e me pediu para vesti-las no provador. Fiquei constrangida de estar invadindo o espaço da clientela da loira embora não tivesse entrado ninguém desde que cheguei, exceto um homem com calças para fazer a barra. Saí do provador com a primeira camisola no corpo, decotada, alguma coisa transparente e abaixo do joelho. Fica na luz para a gente marcar direito, isso é coisa fina, olha aqui, mostrou o acabamento virando o tecido do avesso. Segurando meus braços, me posicionou como um dos manequins da loja, à vista de quem estivesse passando pela rua movimentada e com os alfinetes na boca, foi subindo a barra até onde considerava que uma moça de boas pernas, fez uma média, deveria usar. As pessoas vinham pela calçada e davam comigo de camisola de alcinha no vão entre os manequins com figurinos de inverno. Izilda agachada aos meus pés explicando porque tinha que fazer tudo ela mesma, as ajudantes eram preguiçosas e enjoadas, falavam mal das roupas das clientes, querendo ser o que não eram. A gente tem que ter orgulho do que faz, não acha? Quando soube que eu era jornalista, perguntou sem levantar os olhos se o país estava em crise mesmo. Ela achava que era só boato, que a vida das pessoas não tinha mudado nada. Pobre seguia pobre, rico seguia rico. Concordei. Levantou-se, eu de camisola encurtada e aproveitou a oportunidade para tirar a dúvida: Me diga a verdade, a Folha é comunista?