Os pés da mesinha são cabeças de elefante esculpidas na madeira, as trombas se esticando até o chão. Olhos e presas desuniformes pintadas à mão por artesãos indianos. Pétalas e folhas colorindo o tampo como se o animal carregasse uma manta florida. O elefante quadrado esconde-se ao lado do sofá para ouvir histórias que nunca mais serão esquecidas. Como a do primo tido como autista e que na verdade era um anjo. Sentava-se e conversava com os mendigos, levava comida, comia com eles. E um dia, voou. Ou a da tia muito feia que perdoava as escapadas frequentes do marido e era motivo de pena da família para no leito de morte confessar que ela também tinha um amante. E a do tio que andava com a cabeça ruim e mastigou um dos Reis Magos do presépio da casa da filha.
Sobre o elefante há uma vela numa cumbuca de metal decorado. Quando aceso, o fogo desenha figuras que se movem na parede e assombram o ambiente. Mas o elefante indiano não tem medo de nada. Nem dos mortos, nem dos loucos, nem das pessoas que acham que não são personagens das histórias estranhas dos outros.