São quase 9h da noite quando meu pai liga me convidando para uma palavrinha no jardim que separa as nossas casas. Falamos sobre o calor, o gato dele que teve o rabo comido pelo cortador de grama, o livro Carcereiros, do Drauzio Varella, e outras amenidades. Aí ele abre a razão do chamado:
– Você e seus irmãos têm que organizar um jantar de bodas para mim e sua mãe no dia 24 de janeiro.
– E quantos anos de casamento vocês estão comemorando?
– Não importa. Posso dizer que são Bodas de Pedra Sabão. O fato é que eu precisava de uma desculpa para escapar da pescaria e foi a que me ocorreu na hora.
Há anos meu pai sai por cerca de dez dias com os amigos numa viagem de pesca ao Mato Grosso onde um deles tem um “rancho” , uma pequena casa de madeira que boia sobre tambores na água escura do Rio Arinos. O rancho é tão pequeno que, certa vez, eles inflaram um bote no seu interior e depois não conseguiram sair com ele de lá.Passam a temporada a pão, churrasco e o que pescarem, bebem tudo o que puderem carregar e se contam as mesmas histórias, com pequenas variações que a memória vai elaborando. Há códigos entre eles. Não esquecer o “colírio” significa lembrar de levar a pinga. Coisas assim, de homens maduros que são.
O longo percurso é feito parte de avião, um trecho de ônibus e um tanto de carro. Um deles, o que dirige a maior parte do tempo, fez uma cirurgia pesada na bacia e tem uma prótese na perna, detalhes que não incomodam ninguém porque ele desenvolve boa velocidade mesmo assim. Meu pai, que não é o cara mais preocupado com assepsia e tem hábitos só relevados por nós por se tratar de um “legítimo Motta intelectual e artista”, é quem limpa os peixes. Um outro, “um chato sistemático”, segundo ele, é o responsável pela lista do que cada um deve levar, pelos horários e pela divisão de tarefas. Graças ao chato, a cada temporada novos acessórios são acrescentados à bagagem, boné mosquiteiro, aparelho de medir a pressão, desfibrilador. Meu pai tem horror à regras, nunca carrega documentos e fica extremamente ofendido quando o guarda o pega em alta velocidade, sem cinto de segurança nem carteira de motorista: “Eu não acredito que você vai me fazer ir até em casa buscar”, argumenta mal humorado.
Na tal pescaria, a incompatibilidade com o colega metódico é quase incontornável quando, por exemplo, ele se aproxima da sacola térmica e o chato avisa:”Opa! Cerveja só daqui a 15 minutos!”
Todos os anos, o grupo avalia suas condições físicas, familiares e financeiras e invariavelmente decide que são as ideais para a viagem.
Aconteceu que um deles, o responsável pelo levantamento dos custos e controle dos gastos, sabe Deus se por cansaço ou culpa, resolveu levar a mulher. Meu pai, então, emburrou: “Assim eu não vou. Ela é muito boazinha, pode até ajudar a lavar as coisas, mas me tira a liberdade.”  A pressão cresceu e veio o recado: “Se você não for dessa vez, não precisa ir mais”. Aí, ele saiu com essa: “São as minhas bodas. Eu tinha esquecido. E os meninos fazem questão absoluta de nos oferecer um jantar.” O argumento irrefutável convenceu seus pares: “Eu poderia ainda ter dado um tiro de misericórdia acrescentando uma missa às comemorações, mas preferi não sadicá-los”, disse querendo cumplicidade.
Prometi confirmar a história se fosse consultada. Voltei para casa pensando se deveria ligar para meus irmãos e tratar de armar, de fato, uma festa no 24 de janeiro. Depois achei que era levar longe demais a conversa de pescador do meu pai.