IMG_1857

 

A notícia triste “chegou pelo interurbano em longas espirais metálicas”, escreveu Vinicius de Moraes. Recebi pelo celular, mas doeu igual. Dona Janine teve um AVC e está na UTI, em São Paulo. Eu a imagino, aos 79, de camisolinha de renda, batom, cabelo arrumado e unhas vermelhas, pé e mão, presa`a cama impessoal do hospital. Posso vê-la, vaidosa e coquete, pedindo, ou melhor, cobrando um espelho da enfermeira, preocupada com a aparência descuidada na frente dos médicos e das visitas, para quem ela detestaria parecer estar entregando os pontos. Queria poder entrar com uma pinça escondida na bolsa e tirar um ou outro fio desalinhado da sobrancelha que ela capricha para não perder o desenho `a Marlene Dietrich, embora seja fã mesmo de Marilyn Monroe. A sua festa surpresa de 70 anos teve o “Furacão Marilyn” como tema. O neto, chef de cozinha, fez o bolo de três andares decorado com a figura da loira no famoso vestido voando sobre o bueiro do metrô. As filhas, genros, netos e o namorado, 30 anos mais novo que ela, cuidaram de ambientar o espaço com imagens de cenas famosas da estrela. A homenageada chegou pronta para crime, vestida num modelito curto com estampa de oncinha, sandálias douradas de salto 12, uma flor no cabelo: “É preciso estar sempre pronta para uma oportunidade que talvez nunca aconteça”, preconizou.
Nunca vi Dona Janine sem salto. Ou sem um figurino que tenha lhe tomado, pelo menos, algumas horas na frente do espelho. Sentada elegantemente na mesinha da recepção do consultório odontológico onde a filha e o genro nos atendem, cuida da agenda de pacientes como quem escreve um diário, anotando à mão os horários e as observações pessoais que julga necessárias: Beatriz- Passar na frente porque tem aula de inglês, Luciana- Lembrar de entregar o creme da Natura , Sergio- Perguntar sobre emprego para o filho de fulado de tal, num networking invejável. A porta é também responsabilidade dela e o molho de chaves se agita a cada toque da campainha. Em passinhos miúdos e o gingado particular da idade, abre o consultório sem qualquer restrição e acolhe solidária as dores e queixas alheias. Sorte dos ladrões que no dia do assalto levaram tudo, até as próteses dentárias descansando no balcão, que Dona Janine não estava ali. Ninguém passa impunemente por ela.
Além do crochê ininterrupto, da TV ligada, do telefone que não para, das consultas ao site da Bolsa de Valores, ela usa o tempo no consultório para vender roupas, a maior parte de couro, material que ela adora, e justas. Se a peça não ficar agarradíssima, ela não libera. Me faz experimentar ali mesmo na ante-sala e desfilar para ver se ficou como imaginava. Comprei algumas peças que, é claro, nunca usei, mas quem consegue convencê-la de que uma mulher pode ser feliz sem usar e abusar das curvas que Deus lhe deu? As saias curtas com meias arrastão, saltos altíssimos e um bom decote ela guarda para o baile do domingo que frequenta com o jovem namorado “ciumentíssimo, o único defeito dele”. Sempre dançou muito e quando o rapaz se cansa, sai rodando pelo salão com outros homens e diz que flerta respeitosamente com seus pares, afinal é educado corresponder aos movimentos, mesmo dos olhos, do outro.
Quando ligou animadíssima me convidando para o lançamento do Calendário Sensual da Terceira Idade, não entendi que ela era um dos meses. Foi só com o meu exemplar em mãos que vi as suas fotos ilustrando Junho, frente e verso. Apoiada num piano, de vestido longo vermelho, olhos nos olhos com um senhor de terno igualmente elegante e na piscina, meio corpo para fora da água, num maiô dourado combinando com a touca na cabeça. E matei a charada: Dona Janine é muito maior do que a sala de espera daquele consultório, ela é uma estrela de fato, a nossa Marilyn Monroe.
Estou aqui, fazendo o que ela sempre me pediu que fizesse pelos outros, rezando e torcendo pelo seu bem-estar. Que ela se levante, faça um penteado que valorize a cabeleira loira, pinte as unhas, pé e mão, com o esmalte mais vermelho que houver, retoque as sobrancelhas, vista um modelo justíssimo, o salto 12 e vá já para o consultório abrir a porta para mim!