Você sente solidão? devolveu a terapeuta ouvindo os ais da paciente. Só na cadeira do dentista, a queixante brincou antes de encontrar resposta mais elaborada. Nunca tinha pensado sobre o assunto. Além de bons amigos e uma família numerosa, mantinha um diálogo contínuo com ela mesma, uma convivência íntima e sem máscaras com seus sentimentos e idéias. Medos, alegrias, sonhos, planos ardilosos, fracassos. Até falo sozinha! acrescentou em silencio, querendo reforçar a proximidade dela com ela mesma. E me ouço!
Tinha mais argumentos. Os livros, por exemplo. Não é que fugia para eles, ao contrário, durante um tempo, abria a casa para os personagens e situações literárias alargando sua estrutura de vida. Escrever sim, era solitário, o que é diferente de solidão. A reflexão e a criação são exercícios puxados da alma de cada um. Sozinho. Ninguém pode fazer um abdominal por você. Fazemos força num movimento próprio. E foi no desenrolar do assunto, esparramada na poltrona do consultório, que ela se lembrou da única situação em que sentiu solidão. Foi na mentira do outro. No escondido dela. Na exclusão. Naquele momento em que o outro decidiu que ela não fazia parte. A mentira era a confirmação de que, como ela sempre soube, cada um vive no absoluto de si mesmo. Quando o relógio marcou o final da sessão, levantou-se com a contraditória sensação de ter ganhado um premio sem serventia. Um bicho de pelúcia no bingo.