A jovem bezuntada de protetor solar está deitada na canga tomando sol. De repente, levanta-se e caminha até o rapaz de óculos que lê o Globo sentado à sombra do guarda-sol. A relação dele com o jornal, ainda que na praia, não parece ocasional, mas séria, comprometida. A menina chega sorridente e pergunta, muito `a vontade, se ele pode emprestar o jornal “`a medida em que for lendo”. ” Como assim?”, ele demora a entender. “Vai me passando os cadernos quando você terminar de ler”, ela explica o que lhe parece óbvio, mantendo o sorriso. Ele segue: “Por enquanto, só li o primeiro caderno.” E ela: “Então, não é o meu preferido, mas posso começar por aí.” Pega o jornal e volta para a areia onde se estende novamente. O rapaz ri sozinho, ainda não acreditando muito no que acaba de acontecer.
Sou do tempo em que jornal era sinonimo de status, de controle da informação. Em casa, nós todos, incluindo minha mãe, só podíamos tocar o jornal depois que meu pai terminava a leitura. Ele fazia questão de encontrá-lo impecável, dobrado exatamente como veio da banca, sem nenhuma sujeira ou amassado. Lia de ponta a ponta e distribuia as notícias já editadas de acordo com o interesse de cada um. Éramos crianças e achávamos magico que ele soubesse antecipadamente o que aconteceria na novela `a noite. Não sei porque naquela época, minha mãe, que já era uma educadora experiente e dona de uma opinião pessoal sobre os fatos, não brigava pelo jornal. Hoje, certamente desrespeitaria essa regra como tantas outras que foi colocando abaixo com o tempo. Mas não se faz necessário já que ele abriu mão da leitura prioritária e mais, vira e mexe, lê o jornal no computador observando cuidadoso: “All the News that’s Fit to Click” é o slogan da versão digital do New York Times, substituindo o centenário “Fit to Print”!
Continua com o hábito, herdado de meu avô, de passar as informações que considera relevantes para cada membro da família de acordo com seus interesses. E manda emails, antes eram cartas, para os jornais criticando o desempenho de políticos ou apontando erros da redação. Depois forra as gaiolas dos seus muitos passarinhos com ele. Cem por cento de aproveitamento.
Em Nova York, onde morei por alguns anos, aprendi a conviver com naturalidade com o hábito dos norte-americanos de abandonar o jornal usado, especialmente os tablóides pelo tamanho, em qualquer lugar, imaginando que alguém vá aproveitá-lo. E isso acontece de fato, os exemplares são passados de mão em mão nos parques, no metrô, no taxi, nas poltronas do cinema. Numa temporada que meu pai passou lá em casa,  sempre que ia ao supermercado, voltava com o jornal debaixo do braço e depois passava horas lutando para ler com a ajuda do dicionário. Ele achava que as pilhas que estavam dispostas na entrada, junto aos caixas, eram gratuitas e vinha roubando sistematicamente o seu exemplar.
Meu marido era um jornalista das antigas. Nascido e criado na redação. Gostava do cheiro e dos dedos sujos da tinta do jornal. Quando comentava uma matéria qualquer, passava a mão sobre ela, acariciando a informação. Eu admirava esse amor genuíno e tinha ciúme da atenção e importância que ele dedicava a essa sua paixão maior. Para mim, ficavam as portas marcadas com impressões digitais comprovando a autenticidade da relação.
Pensando bem, a cena da praia, diferentemente da estranheza que me causou, pode ser lida como um momento romântico, tanto para o possível futuro casal quanto para o jornal, que cumpriu, mais uma vez, o honroso papel de carregar belas histórias.