Um coco, dona Marcia? O rapaz da barraca da praia. Me deu preguiça de consertar. Me deu também um conforto essa distancia do nome errado. Como de uma intimidade só de aparências. Só que não. A gente se encontra quase todos os dias cedinho quando deixo minha bolsa com ele para correr. Na volta, tomo uma água de coco e falamos do tempo, da família, da inevitabilidade do nosso destino, xingamos o governador, o que está muito na moda aqui no Rio. E ficamos em silencio olhando o mar. Essa, a medida. Qualquer gesto aproxima, outro afasta. O avesso da gente nem a gente conhece e conviver com o interno dos outros é um comprometimento para a alma. Depois que você vê fica amarrado para sempre na promessa ou na culpa. Não somos. A nossa conversa, difícil no começo pelas diferenças de origem e crescimento, foi ganhando um modo comum entre o meu e o dele e hoje me sinto como quando embrenhada nos sertões de Guimarães Rosa, já longe do estranhamento, na velocidade do terreno conquistado. Ele também segue tateando minhas reações, arriscando um comentário ironico, ri e espera meu riso tão depressa que se explica antes que minha boca se abra e eu nem tenho tempo de fazer que entendi. Como outro dia, quando disse que bebe desde os 9 anos e mostrou os dentes com os que lhe faltam também para reforçar que era engraçado mesmo sendo verdade e tão triste. Eu ri, mas já era tarde. Sei o nome dele, Rafael. Na barraca disseram que não. Fiquei com o que ele me deu pelas razões que teve naquela hora. A nossa conversa não depende de quem somos fora dali. Se constrói sem antecedentes, no acontecer das coisas, ou só no observar. Me empenho na sua manutenção, no entanto, recupero ontem, provoco o que virá. Sei que já existe e que me fará falta uma hora. Essa a razão, a importancia tão grande de não perder o fio, mais do que isso, de acreditar.