Do cemitério onde percorro as lápides enterradas num jardim florido, ouço o som do órgão ecoando na igreja ao lado, no alto de Alesund, uma comuna na Noruega. Era o ensaio para o concerto da noite onde se apresentariam organistas ingleses, convidados pela prefeitura. A igreja, construída em 1855, veio ao chão por um incêndio que destruiu a cidade inteira. Ergueu-se novamente em 1909. Seus vitrais retratam cenas de pescadores puxando a rede, peixes e o mar. Pendurada no teto por longos fios de metal, voando sobre as nossas cabeças, a figura singela de um barco, comum nas igrejas norueguesas, para agradecer e pedir a Deus proteção para a pesca, principal atividade daquele país. 

O seu interior era diferente do que eu conhecia das igrejas da Italia, Espanha, Portugal e, por tabela, das nossas mineiras e baianas. Menos dourado, menos colunas e balcões, poucos santos e anjos pintados ou esculpidos, menos de tudo. Só grandiosa na altura e na estrutura para o coral e para os órgãos, um de cada lado e outro no fundo, tudo erguido lá para cima, perto do céu. A música seguia tomando conta, ganhando o lugar que merece na manutenção da fé. O espírito se misturando com as entranhas da gente. Extasiada, quase contraditóriamente, eu vi o homem por trás daquilo, tive fé no homem, no músico, no pescador, não dei crédito para o abstrato. Sentei-me e esqueci de rezar. Ou rezei pecando, senti que a música justifica a vida. Pensei: não quero morrer.