Passei o dia inteiro trancada num quarto de hotel em Nova York com Paulo Maluf. A Veja me pediu esse freela, pelo qual eu deveria ter cobrado três vezes mais. Não pela entrevista, uma animada conversa com o ego dele, mas pelo que veio depois. Do meu gravadorzinho impotente, transcrevi horas de um monólogo em que o então prefeito falava das pontes, elevados, túneis e outros feitos que encantavam os taxistas de São Paulo e outros tantos malufistas ferrenhos. Precavidamente, fiquei fechada no quarto enquanto as meninas brincavam de futebol na sala. No segundo tempo do jogo, entediadas, elas entraram com bola e tudo e, num chute certeiro, derrubaram e quebraram o computador. O gol quem fez, sejamos justos, foi a Manuela. O deadline era em menos de uma hora. Gritei e chorei e jurei trancafiá-las por toda a vida no porão escuro de uma casa que eu compraria com as moedas do porquinho delas. As duas correram assustadas, mas já não me interessava o seu sofrimento. Estava desesperada. Lavei o rosto, respirei fundo e tentei me acalmar para reescrever aquilo tudo. Não deu certo. Já não havia tempo para arrumar o computador e a matéria não saiu. Mais tarde, veio o pedido de desculpas que eu guardo até hoje para lembrá-las que a minha provável carreira de sucesso como jornalista fracassou por culpa delas.
“Mamãe querida, a Manuela sente muito por ter arruinado seu trabalho. Eu nunca mais vou ver você trabalhando de novo. Desculpe, com amor, Luisa e Manuela.”