A arquitetura do prédio na Vila Madalena é arrojada. Dessas que a gente não sabe dizer se é legal demais ou horrorosa. Para não errar nesses assuntos, sempre espero o interlocutor dar a sua opinião para, então, me posicionar. Dei a volta, estacionei o carro na lateral do edifício, junto a um paredão de concreto com uns recortes de grama e fui encontrar o amigo num café na rua de baixo. Meu amigo tem alma de artista e não gosta de acordar cedo. Ainda assim, marcamos às 8 da manhã porque eu tinha horário na firma, chefe, essas coisas. Ficamos uma hora mais ou menos conversando sobre algum projeto que não vingou, mas que sempre justifica o encontro. Ele mora ali perto, veio à pé e na saída, me acompanhou. Ao virarmos a esquina, vimos um grupo de pessoas perto do meu carro e eu pensei que tinham tentado roubá-lo. Quando chegamos perto, uma mulher de cabelo vermelho, vestido estampado e ar transtornado, jamais esquecerei, perguntou se o carro era meu e anunciou que eu havia estacionado na porta da garagem do prédio impedindo a saída dos moradores entre 8 e 9 da manhã. As crianças não foram para a escola, os adultos não foram trabalhar, mamãe perdeu o pilates, papai a reunião. O pessoal estava furioso de verdade e com razão. Eles não sabiam o que fazer. Pensaram em chamar a policia, um guincho. Um homem de terno forçava o vidro com uma barra de ferro. Eu gostaria de explicar que aquilo não parecia em nada com a entrada de um prédio e que nem tão rebaixada assim a guia estava, mas percebi que qualquer palavra poderia ser usada contra mim de forma violenta. Meu amigo se despediu em voz baixa. Eu também me acovardei. Pedi desculpas, foi mal aí, gente, atravessei o grupo, entrei no carro e manobrei como nunca antes, em dois movimentos meu carro estava livre. O homem do terno ainda gritou: você tem sorte, eu ia arrebentar o seu vidro! Detesto arquitetura moderna.