Desde criança, sonho repetidamente que estou de pijama em locais inapropriados, na escola, no trabalho, num restaurante, numa festa. Para piorar o mal-estar, o pijama é feio, grande, velho, de flanela xadrez. Ao contrário do que  a situação poderia sugerir, o sentimento não é de conforto, mas o oposto disso. Só me dou conta de que vim com o traje errado quando já estou naquele lugar, com diversas pessoas à minha volta. Entro, então, no momento mais tenso do sonho, quando provavelmente aperto os dentes dormindo e tenho que tomar uma decisão: ou disfarço agindo como se estivesse vestida numa roupa normal acreditando que com isso vou convencer os outros de que sou o que não sou ou trato de assumir a piada fazendo de conta que o descuido foi proposital e que estou achando muito engraçado. Nenhuma das duas saídas acontece a tempo e me vejo, por uma câmera no alto, atuando ridiculamente naquele cenário. Acordo de camisola, porque nunca usei pijama, aliviada por estar na cama, contente por não ser a louca do sonho. Precisamos trabalhar esse seu sentimento de inadequação, diz o analista. Por mim, a essa altura, bastava trocar o modelo do pijama por um mais bonitinho.