Não gostar de animais é um pecado universal imperdoável. Ao lado de bebês, celebrações de casamento, o por do sol e outros, os animais são objetos de sensibilização coletiva e estão associados à pessoas afetivas, de bom coração. Venho de uma família especialmente ligada aos bichos. Nem tanto o lado fazendeiro dela, que lida com galinhas, porcos e bois basicamente como alimento, e cachorros e gatos como presenças naturais em qualquer casa. A porção urbana da família é que trouxe o conceito de animal de estimação, um bicho retirado de seu habitat e feito gente, com nome e qualidades humanas atribuídas. Meu pai é conhecido pelos cães de raças variadas, gatos e passaros que o acompanham ao longo da vida. E meus irmãos, tios e primos trocam fotos e informações sobre seus bichos o tempo todo. Nesse contexto, me olham torto porque, diferentemente dos outros, prefiro uma reprodução em madeira ou tecido `a criatura em carne e osso, propriamente dita. “ Tia, é verdade que você não gosta de bicho? “ , me perguntou uma sobrinha bem pequena. “É. E nem de criança”, devolvi com malcriação. Todas as noites, quando me ponho de joelhos, incluo nas minhas preces o pedido de perdão a Deus por ser, nesse aspecto, uma pessoa ruim. O tema é recorrente também nas sessões de terapia em que tento explicar a culpa pela insensibilidade animal para alguém que gostaria de ouvir crimes maiores.
Mas porque sou mãe, e as mães são seres temporariamente irracionais, já tive cachorros, gatos, hamsters, passarinhos, peixes. E, há cerca de um mês, num momento de fraqueza, adquiri por cerca de quatrocentos reis, um kit completo de gaiola, comedouro, bebedoro, ração e o coelho Fred, rapido e charmoso como o jogador do Fluminense e da seleção.
Fred veio por insistência da minha filha de 15 anos que ficou namorando o roedor tempo suficiente para justificar a sua aquisição. Todo dia, saía da escola e seguia direto para a pet shop de onde voltava cheirando à ração. Escolhemos o machinho, único com dupla coloração e, naquela época, pelo menos uma orelha em pé. Sempre que conto que comprei um coelho anão, a reação é de gargalhadas que expressam a denúncia: “Caiu no golpe”. Dizem que ele cresce como uma capivara dessas avistadas nas margens do Tietê.
Fred ficou 3 semanas comendo tudo o que encontrou pela frente, tapetes, fios, rodapés e até a revista Piauí, ao que, obviamente, me dei o crédito. Era alegre e manso. Atendia pelo nome. Adorava cafuné. Um dia amanheceu entrevado. Orelhas caídas. Não andava, não se mexia, não comia. Como estávamos convenientemente saindo de férias, deixamos o coelho paralisado na gaiola e tocamos para o aeroporto. Eu, ligeiramente aliviada pelo destino que a natureza havia decidido dar a ele e minha filha aos prantos, trocando emails com os amigos que pesquisavam na internet um diagnóstico para ele. Avisamos meu marido que o problema estava em casa aguardando os cuidados dele. Esbravejou nervoso como todo homem diante de um cano entupido ou uma criança com febre. No dia seguinte, o coelho foi despachado para a única clínica veterinária que aceitava animais silvestres como pacientes. E passamos a trocar emails com a médica, ela própria uma espécie rara e provavelmente em extinção, que se compadeceu do bichinho e decidiu dar a ele uma chance maior do que merecem os animais nessa situação.
Os primeiros boletins medicos nos davam conta de que o estado do paciente era crítico e ele teria que ser internado numa espécie de UTI a um custo alto que só eu, criatura insensível, questionei. Vieram outros comunicados depois com entediantes detalhes técnicos que descreviam  pequenos progressos como a “ingestão de alimentos líquidos”, apresentados pelo coelho. Posso imaginar o momento do dia em que essa mulher, enjaulada numa clínica com micos, lagartos e passaros, sentava-se emocionada no computador para falar com a família do animal. Quando ele estava mais forte e precisava de espaço, ela achou por bem levá-lo para casa e nos enviou um email em que comunicava a sua decisão: “Quanto ao Fred, cheguei em casa e soltei o mesmo, pois ele estava ansioso para brincar e eu queria aproveitar os bons momentos de diversão com ele…”  Fazendo jus ao nome, Fred era um sedutor e estava claramente tirando vantagem da fragilidade emocional da veterinária. Ela agora vivia aos caprichos “do mesmo”.
Por fim, veio a notícia da alta hospitalar com “total recuperação do coelho Fred, sem sequelas, podendo retornar ao convívio dos seus”. Eu, particularmente, nunca me considerei nada do coelho, portanto, concluí que nesse momento deveria soltá-lo no mato para conviver com os seus. Sou uma pessoa má, mas não o fiz.