No refinado restaurante francês, conhecido pela cuisine que vem de varias gerações, acho estranho que os preços não estejam no cardápio. Deve ser chique, pensei e dou risada imaginando como vamos nos dar mal nessa aventura gastronômica às cegas. Comento com meu namorado, tentando levar a coisa com bom humor. Ele me estende o seu cardápio com os valores, como seria natural. Chamo o maitre para dizer que houve um erro: Veja, esse aqui não tem os preços! Hahaha! Ele devolve num tom quase irônico, acentuando o sotaque francês em território uruguaio, que é assim mesmo. E como se fosse uma óbvia questão de educação, explica que apenas os homens devem conhecer os preços do que estamos comendo. Indignada, mas em voz baixa, juro, digo que não é porque o restaurante é de 1878 que o mundo tenha parado naquele tempo. E que é extremante ofensivo considerar que as mulheres tenham um papel figurativo na mesa. Na sociedade. Na política. Na economia. Agora, ele é que está surpreso. Até hoje, nunca tivemos reclamação, madame. Enquanto esperava meu marido experimentar o vinho, cortesia que só a ele foi oferecida, pensei com meus tostões: se a grande maioria dos homens ainda ganha mais e tem privilégios profissionais, eles que paguem a conta. E nesse caso, muito caro.