No começo era só um guardador de carros no dia da feira. Embora desse as costas para os carros e não guardasse nada, os frequentadores daquele quarteirão estavam acostumados à sua figura negra, alta e forte e porque não ameaçadora, protetora. Falava sem parar, dando instruções sobre vagas e manobras mesmo quando o carro já estava estacionado. Como um comentarista estendendo-se muito depois da jogada. E segurava a porta, as sacolas, o carrinho a ser dobrado no porta-malas. Acenava em longas despedidas em voz alta recomendando a Deus que cuidasse do motorista na volta para casa, o carro cheirando a fruta, peixe, cominho. Mão para fora da janela, o motorista, invariavelmente, agradecia a atenção exagerada e garantida.
Aos poucos, foi soltando as amarras e a voz e cantava com um microfone invisível na mão. A esquina entre o pasteleiro e o florista, um palco improvisado e publico garantido. A turma distraída com o copo de garapa na mão e a coreografia no fundo. Caretas e corridinhas à Bethania, braços escorridos ao longo do corpo. De tempos em tempos, lembrava-se dos carros, largava tudo, abria a porta, apontava um lugar vago, ajudava com as compras. Ofegante no intervalo da apresentação. A turma acompanhando sua trajetória na direção da razão perdida.
Ontem, ele estava maquiado. Sombra azul, blush, batom. Uma dezena de presilhas no cabelo e, ainda assim, despenteado. Uma saia sobre a calça e a camiseta com decote rasgado até a metade do peito. Descalço. Andava apressado de um lado para o outro com o olhar aflito. Não gostei. Ninguém gostou. Ainda falava sem parar, mas agora baixinho, acelerado, quase incompreensível. Fechando a porta de um carro, o rosto colorido na janela, queixou-se de qualquer coisa para o motorista. É que você é muito sensível, disse respeitosamente o senhor de cabeça branca.