“Minha barriga está roncando. Pode queixar-se à vontade que não vou lhe dar comida.” A elegante senhora, carioca do tempo em que se morava em Copacabana, não deixa claro se fala comigo, com a sua acompanhante ou com ela mesma. A outra, uma prima? parece-se com ela, mas é mais séria e calada. E não poderia ser de outra forma.

Ainda no solo, olha pela janelinha: “Como o Rio é bonito, não, dona Rosinha?” Tratam-se de modo formal apesar da clara intimidade entre as duas. O diálogo é sempre de uma mão só.

“Estou com tosse, não posso com o ar-condicionado. Você trouxe o xarope? Hein?” Sem esperar  resposta, dirige-se à comissária de bordo:

“Meu bem, vocês tem uma bala aí? Minha garganta está coçando.” A jovem acha graça no tom dela e  desculpa-se numa resposta negativa.

“Vamos rezar para esquecer a tosse”, propõe a outra. Abrem as bolsas, tiram as bíblias.

“A sua está feia demais, dona Rosinha. Vou lhe dar uma nova.”  Não chegam a começar.

“A senhora avisou a Gilda que iríamos a São Paulo?”

“Não.”

“Hein?”

“Não avisei.”

“E por que?”

“Porque não.”

“Por que?”

“Não quero ninguém cuidando da minha vida.”

Atravessamos uma leve turbulência.”E esse avião que sumiu com mais de 200 pessoas a bordo, hein, dona Rosinha? Estão dizendo que foi levado para outro planeta.”

“É o fim do mundo.”

“Eu, graças a Deus, só vôo de Azul. Até mudei a data da cirurgia para me adequar aos horários deles, não foi mesmo?Hein?”

A conversa segue tratando dos detalhes da tal cirurgia que se dará dentro de dois dias, no Einstein, em São Paulo. “Estou levando um presente para a secretária do médico das hemorróidas. Ela é muito atenciosa. Como é mesmo o nome dela?” E direto para mim:

“Essa sua pulseira é de onde? Muito bonito o desenho clássico dela.” Respondo baixinho:

“É da Tiffany”

“Hein?”

“Da Tiffany”, repito.

“Ah, sabia! Morei muito tempo em Nova York. Vivia com os olhos colados naquelas vitrines. Onde você comprou?”

“Em São Paulo, no Shopping Iguatemi.” Agora para a outra:

“E se a gente passasse lá a caminho do hospital, dona Rosinha?” Volta para mim:

“Fica muito fora de mão?”

Depois do lanche, quando quer um café com leite “daquele de astronauta, em pó, que vocês nos servem aqui”, reclama que as mãos estão sujas,  pede um guardanapo molhado para a comissária e ganha lencinhos umidecidos.”Isso não havia no nosso tempo, hein, dona Rosinha? Que invenção! Obrigada, meu bem, tome, recolha isso agora. Serviço nota 10 dessa companhia!”

Encara a outra por um momento e comenta:” A sua sobrancelha está linda. Quem tira ainda é a Wilma? Hein? E a minha está boa?” Pega o espelhinho na bolsa, checa a sobrancelha, aproveita passa batom..” A sobrinha da Wilma está na Petrobrás. Nem precisou de concurso. É inteligente e tem estampa, a senhora não acha?” A outra alisa a capa do livro, Os Sete Passos Vitais para Receber o Espírito Santo, querendo ler. Ela espia um comercial na pequena tv. “A cerveja da Copa, a Brahma, está uma coisa! Parece um chopp! Hein? Meu fígado não acha graça, mas é problema dele. Não vou me privar por sua causa.”

O avião inicia a descida. Ela aponta lá fora: “São Paulo deve estar entre as cidades mais feias do mundo, não, dona Rosinha?Hein?”