Chovia e fazia frio em Nova York. Procurei abrigo no primeiro cinema que apareceu no caminho. Ghost já tinha começado, mas não tive dificuldade de entender que o fantasma era o marido morto que atentava Demi Moore, a mulher mais linda que eu tinha visto na tela e que deu mole para ele mesmo sabendo que não seria uma relação carnal.
A sessão, no meio da tarde, estava praticamente vazia, exceto por um ou outro desocupado aproveitando a meia entrada concedida naquele horário. Tirei os sapatos molhados e os forrei com o NY Post, um tablóide delicioso, agora mais útil do que nunca, cheio de fofocas da cidade, colunistas divertidos e dicas confiáveis de mostras internacionais de cinema e teatro off off Broadway.
Pouco depois, entraram quatro bombeiros, devidamente uniformizados, capas cinza com riscas amarelas fosforescendo no escuro, enormes capacetes nas mãos, e aboletaram-se algumas fileiras à frente. Para ver o filme. Como assim? Bombeiros não podem ir ao cinema. Sentar-se perto de nós, mortais. Comer pipoca. Estariam cabulando o trabalho? Divertindo-se entre um fogo e outro? Não assisti o filme. Queria acompanhar cada movimento deles, uma risada, uma mexida na cadeira. Cadê o capacete? No colo, descansando. Pensei nas botas deles e voltei obediente a calçar os sapatos. Não cabíamos no mesmo ambiente, um sem gritaria, fumaça e ação. Estava desconcertada. A sobrenaturalidade do filme contaminando tudo. Quando a luz acendeu, levantei-me junto com os homens agigantados pelo uniforme e, ainda que não houvesse mais ninguém no corredor, caminhei colada a eles para saber o que viria a seguir. Será que voltariam a ser bombeiros, entrariam no carro e sairiam em disparada por Manhattan fazendo escândalo com a sirene ligada? Se isso acontecesse, estaria tudo resolvido, eu me sentiria em paz sabendo que o mundo continuava a funcionar como sempre, o mundano nas suas pequeninices, o super-heroico sobre nós, cada coisa em seu lugar. Eu precisava urgentemente que os bombeiros assumissem o seu papel supra-humano. Mas eles pararam na banca de jornal e compraram M&Ms.