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A senhorinha estava sentada com o talher no colo. Não tinha uma barraca como os demais expositores da feira de antiguidades, em Nice. Aboletou-se numa banqueta, forrou as coxas delicadas de mulher francesa com uma pequena toalha branca de linho bordada e acomodou as facas, garfos e colheres de forma a valorizar o conjunto. As peças tinham os cabos decorados em relevo na prata lustrada, na verdade, os garfos de sobremesa eram desenhados também nos dentes, uma agradável surpresa para os olhos mais caprichosos. Não era um talher completo, faltavam algumas colheres para servir, aquelas maiores, muito úteis, que qualquer dona de casa aprecia. Por isso, ela vendia por um preço mais acessível. Era uma figura encolhida, de coque grisalho, sem uma estrutura de proteção, com um tesouro no colo. Estava vendendo um pedaço da sua história e garantia, sem dor no coração. Pode levar sem peso, piscou sorrindo. As mãos enrugadas acolhendo as peças numa moldura viva, pulsante e fragil. O sol começava a se esconder por detrás das nuvens, ela ajeitou o xale nas costas. Meu dinheiro não valia nada naquela hora. Comprava o que não se vende, o tempo, a experiencia vivida, a memória. Os objetos carregam histórias, mas não passam de mensageiros sem coração. Esquecem-se de onde vieram, o que viram, com quem conviveram. Seguem seu destino sem olhar para trás. Mortos, numa certa medida, ainda que sobrevivam a nós. Pensei no chá quente que esperava por ela em casa. No brioche que compraria no caminho. Na gaveta onde colocaria o dinheiro. Entristeci na conta que fiz. O sentido perdido daquela negociação. Elogiei o talher, mostrei que reconhecia o valor daquilo de que ela se desfazia ali. Mas já não havia significado algum. Não conferi, não toquei. Não pude. Ela amarrou tudo com cuidado na toalhinha, colocou numa bolsa velha de pano e me entregou.