Já estava tudo no carro para a viagem, malas, caixas com comida, travesseiros no banco de trás, o lampião a gás que a tia comprou para pendurar na varanda do sítio. O cheiro chegou antes do barulho da explosão. Por último, a fumaça. O carro ainda na garagem. Corremos para ver. Eu adorava aquela casa e meus cinco primos, três deles, os Irmãos Metralha, assim chamados porque eram muito parecidos e porque juntos incorriam em delinquências juvenis ao mesmo tempo criativas e desastrosas que terminavam em braços e pernas quebradas, pontos na cabeça, raramente num plano exitoso. A casa, no bairro do Sumaré, em São Paulo, não tinha portão fechado nem adulto de guarda nos nossos movimentos dentro e fora dela. Podia-se quase tudo. Era barulhenta e fascinante, cheia de gente e bichos de todas as origens. Cachorros, gato, papagaio. A tia tinha especial carinho pela Magali, uma coruja solta no quarto dela. Era uma bolinha de penas ancorada na penteadeira que, à noite, revelava os grandes olhos e o bico voando por todo o andar de cima. Na banheira morou uma cobra, a Monica. E, durante uma época, havia um jacaré se arrastando pelo quintal. A Seba, que trabalhava lá e era da farra e da autoridade, defendia-se com a vassoura quando ele aparecia na cozinha atrás de comida.
No dia do incêndio, a Seba ainda tentou acudir com pesados baldes de água até perceber que o fogo já escapava ao controle e lambia a janela do quarto em cima da garagem. À gritaria geral misturou-se a sirene dos bombeiros que vieram correndo num escândalo maravilhoso. Estávamos excitadíssimos com as chamas altas e as sucessivas explosões que provocavam. A vizinhança amontoou do outro lado da rua. Mesmo crianças, éramos consultados sobre as condições em que a coisa se deu, nos sentimos superiores, donos do incêndio. O comentário era de que se a perda foi grande deveríamos agradecer a Deus pelo acidente ter acontecido antes de pegarmos a estrada. Aquilo soava trágico, acrescentava comoção ao momento, mas estávamos animados demais com a confusão, o susto, a aventura, para entristecer. Sequer nos passou pela cabeça a possibilidade de ser uma tragédia.
A tia certamente conta outra história, mas não quero ouví-la. A realidade depende da posição de cada um. E eu gosto de guardar a fotografia do ângulo que tirei.
Com Maria Teresa Prado SumaresSilvia Prado SegallPaulo SumaresMarcelo Prado Sumares e Amalia Prado Sumares.