Apertava a mão da gente com tanta força que, aos poucos, foram desistindo de cumprimentá-lo. Você podia ver de longe a expressão de desgosto e o corpo da pessoa se contorcendo com a mão presa na dele, as palmas gigantes. No começo, ninguém comentava porque acabava esquecendo. Era aquele impacto da dor e em seguida um abraço carinhoso e até o final da conversa ele ganhava o coração da vítima e o mal-estar ficava para trás.
Crianças, tentávamos adiar esse padecimento terrível, um empurrando o outro e torcendo para que talvez o gesto fosse enfraquecendo até chegar a nossa vez. Pior do que a dor era a vergonha. Em sistema de revezamento, enquanto um era torturado, os outros davam risada das caretas. Crescemos educados, enfrentando o protocolo, submetidos ao que nos parecia inevitável. Alguns homens, depois soubemos, tinham desenvolvido um sistema de abrir os dedos de tal forma que suavizava a pressão. Outros já iam para o cumprimento decididos a vencer o adversário e tascavam-lhe um aperto ainda mais forte, mas que, infelizmente, passava despercebido por ele. Por alguma razão, a maior parte dos homens dessa época e local, e aqui vai uma queixa pessoal, tinha a mão mole, descomprometida, que merecia e era estraçalhada dentro da dele.
A primeira a abrir o assunto foi minha mãe. Um dia, voltando de um aniversário, reclamou do cumprimento sacudindo a mão no ar e a gente riu com cumplicidade, como se finalmente fossemos autorizados a comentar o segredo bem guardado de um membro da família. Uma peruca ou a falta de banho.
Fizemos piada sobre a virilidade dele e o aspecto franzino da prima. Algum tempo depois, veio minha avó. Aos noventa, ninguém precisa fingir que é dor a dor que deveras sente. Quando anunciou que não aceitava mais o cumprimento do sobrinho, houve uma preocupação mineira, silenciosa e política, de que a atitude poderia criar um constrangimento na família. A sogra dele, irmã mais nova da minha avó, querendo contornar a situação e ter, ela também talvez, um alívio físico e nada mais, ponderou que alguém poderia explicar com jeitinho que, com a artrite, minha avó já não dava conta desse aperto de mão tão enfático. Com sorte, a desculpa valeria para todos os demais, mesmo os ainda sem artrite. A conversa não andou. Era um homem bom e se ofenderia. Mineiro ofendido nunca esquece e vira estátua de sal. Ele, que fez a pesquisa para a árvore genealógica da família, que organizou a excursão à cidade natal do nosso tetravô e, sobretudo que, por uma fatalidade, era afilhado dela. Apertava e beijava a sua mão. Não era uma possibilidade.
Minha avó escolhia destemidamente as palavras para dizer o que pensava, mas não disse mais nada. Achou a saída quando passou a oferecer o ombro e o rosto ao mesmo tempo, confundindo-o um pouco no início e safando-se definitivamente do incômodo. Fomos observando o sucesso daquele jogo de corpo e, como ela, passamos a esticar o pescoço de longe e beijá-lo antes de qualquer chance do uso das mãos. Os homens, aproveitando a deixa, partindo direto para o abraço. Uma revolução nos costumes. Parece que o primo não achou ruim. E a prima até engordou um pouquinho.