Em Washington, conheci uma dama. Dessas que a gente lê a respeito no jornal, vê as fotos e imagina uma vida perfeita. Que a casa, a família, o dia-a-dia, expressão, aliás, por demais mundana para se aplicar a ela, não tem uma única mácula. O humano, com seus desacertos e falhas, nem se aproxima. Acompanha-a o criado pelo homem, objetos, regras, obrigações sociais, conceitos estéticos. Diante dela, mesmo a natureza é submissa. As flores no vaso escondem desigualdades, o jardim não tem vontade própria, a água que cai nas pedras é obediente, não corre livre, jamais esparrama. Comportamento irretocável até na desgraça. Jackie Kennedy. Seu choro, seu medo, sua dor, são invejáveis. A gente chega a querer passar por aquilo para poder reagir como ela.
Com salto e bolsa Chanel, a dama de Washington me levou a museus, saraus, grupos de leitura, almoços com outras damas. Nos piqueniques no jardim das esculturas, da National Gallery of Art, em dias de céu absolutamente azul e temperatura amena, eu torcia sadicamente para que uma folha voasse sobre as taças de champanhe ou que uma única formiga arriscasse um passeio até a louça, mas nunca aconteceu. Um sobrenatural controle da situação. Eu ficava ali, fazendo que pertencia, contando histórias inventadas sobre o brasileiro, criando teses sobre a nossa cultura exótica, a mulherada anotando mentalmente. Fomos companheiras de muitas jornadas monótonas enquanto nossos maridos empreitavam outra espécie de monotonia, a da imprensa oficial. Ela achava graça na minha curiosidade sobre o protocolar, atendia e a alimentava de informação, adivinhando com inteligência o que viria depois, o fastio. O preço dessa generosidade era um olhar espontâneo e vivo que eu tinha diante das revelações e que ela tomava emprestado quando necessário, quando o ensaiado já não dava conta de impressionar os presentes.
Uma tarde, enquanto devorávamos uma torta inteira em fatias finíssimas porque estávamos de dieta, confessou-me um pecadilho, uma brincadeira que só ela poderia dar-se ao luxo de fazer. Ao longo de muitos anos frequentando festas e solenidades da alta roda de Washington, a dama adquiriu uma invejável coleção de guardanapos e toalhinhas de cambraia de linho, dessas que acompanham os petit fours na bandeja ou que os garçons nos estendem junto com o copo e que ela, discreta e sistematicamente, levava escondido para casa. A gaveta fechou-se com seus segredos. Dormi muito tempo encantada com o momento de intimidade conquistado, com a humanidade finalmente revelada e, sobretudo, com os paninhos que ela imodestamente exibiu, ricamente bordados em monogramas variados, cuidadosamente engomados, delicadamente rendados, um enxoval requintadísimo, verdadeira paixão mineira. Pois foi.
Dessas coisas que é preciso atribuir ao inconsciente, vários anos depois, quando a nossa amizade já nem acontecia, fui à uma recepção elegante numa embaixada da cidade, bebi o quanto não deveria e, contam testemunhas, passei a noite arrancando ostensivamente guardanapos das mãos dos garçons e enfiando na bolsa à vista de qualquer um. Até do lavabo, voltei algumas vezes, trazendo toalhinhas de mão e comentando a qualidade do linho antes de entregar para o meu marido, pedindo desculpas por interromper a conversa com um colega e que ele colocasse no bolso, por favor. Fomos embora cedo, dizem que a festa, como sempre, estava chata. No dia seguinte, prometi nunca mais beber e tentar ser chique.