Num dos muitos estágios a que me sujeitei na vida, fui como produtora de filmes publicitários encarregada de visitar uma fabrica de fibra de vidro. Pouco antes de entrar, ainda no carro da empresa, um colega me ofereceu um Halls, aquela bala ardida que suga o ar que a gente respira. Ele sempre levava aquilo no bolso para não ter que escovar os dentes. Aceitei a bala na pura inocência, foi a minha primeira vez. Era uma bomba relógio com hora certa para explodir. Assim que nos apresentamos na recepção, o dispositivo mentho-lyptus foi detonado e percebi que não poderia suportar a boca queimando por muito tempo. Queria me livrar da bala, mas não achava jeito. Aquilo estava me enlouquecendo, eu a jogava de um lado pro outro, segurava com os dentes, empurrava com a língua. Foi na subida de uma escadaria vazada, a caminho da sala de reunião, que tomei coragem, discretamente cuspi o Halls na mão, deixei a bala escorregar lá de cima entre os degraus e ainda ouvi o barulhinho da sua queda no solo. Depois da conversa para acertar os detalhes do projeto, descemos novamente e, já a caminho da porta, o gerente apontou orgulhoso uma enorme maquete da fabrica, feita em fibra de vidro, claro, e montada sobre uma estrutura de concreto. Aproximamos-nos. E então notei com terror que lá estava ele, o Halls. A bala havia caído exatamente ao lado do prédio principal. Como uma nave espacial estrategicamente pousada no heliporto, transparente como todas as peças do projeto e na proporção exata das figuras da maquete. Meu coração disparou. Senti novamente o hálito que me incriminaria. Ao meu lado, o gerente descreveu as instalações, e agradeceu a visita estendendo formalmente a mão. Foi a primeira vez que me encantei com um homem por não me beijar.