Dona Marina, os rapazes da assistência técnica estão subindo. Desligo o interfone toda serelepe, saltitando pela cozinha. Desmentindo as estatísticas, contra todas as expectivas, eles vieram. Corro para o quarto para ver se não deixei uma calcinha, um sutiã jogado, tiro da estante alguns noivinhos de enfeitar bolo, são cerca de 150 casaisinhos na coleção, para abrir o espaço por onde passam os fios da televisão. Enrolo o tapetinho ao lado da cama onde só piso sem sapato, até os gatos sabem disso, para que eles, que Deus me perdoe a maldade, não arrastem os calçados imundos da rua ali. O porteiro disse, os rapazes. No plural. Puxa vida, que regalia, a coisa é profissional mesmo! pensei. A campainha soa e eu os conduzo ao quarto. Dá licença, diz o mais alto na ponta do corredor. Gosto muito desse gesto que soa sempre como de educação de casa. Mostro a televisão sem vida, conto a historia dela, peço que tentem tudo o que for possível, não quero outra, quero essa de volta. O baixinho é mais forte ou é o encarregado do trabalho pesado. Li em algum lugar que as pessoas mais altas tem privilégios profissionais que nós, os baixos, não temos. Ele abre os bracinhos, abraça o aparelho e o arranca da parede. Quando se vira, eu grito descontrolada porque antevejo o seu movimento de colocar a TV sobre a colcha branca. Corro para o banheiro e pego uma toalha de banho para forrar a cama. Ele parado, metade homem, metade TV. Muito casamento já acabou por menos do que isso, moço. Ele concorda em silencio. O mais alto vem com a chave de fenda e retira os parafusos usando as pontas dos dedos, como se não precisasse força, mas inteligência. Essa era a atitude e eu e o baixinho mostramos respeito. Ficaram ali discutindo um pouco, fazendo que era coisa complicada, eu tentando ler as expressões no rosto deles. O mais alto olhou, então, para um amontoado de fios na parede e fez uma observação qualquer sobre a entrada ou saída que eu não ouvi porque nesse momento me dei conta de que esqueci na estante, na altura dos tais fios, dois vidrinhos japoneses muito antigos com desenhos do Kama Sutra que alguém comprou num mercado de pulgas na Europa e me deu de presente. O alto chamou o baixinho, apontou na direção dos vidrinhos e o os dois ficaram ali apertando os olhos e não sei se gostando ou não, eu querendo interromper, oferecendo um copo d’água, eles não aceitando. Tomei coragem e perguntei se não era bom tirar os vidrinhos, fui avançando, e um deles disse que não estava atrapalhando. Me arrependi de mostrar que estava vendo o que eles estavam vendo. Voltaram à televisão, seguiram trocando peças e, por fim, a penduraram novamente na parede, o menor ainda ajeitando o aparelho e o alto com o controle na mão, testando. Antes de sair, o baixinho recolocou os noivinhos com delicadeza e ajeitou os vidrinhos japoneses, desconfio que só para tocar neles. Eu sorri sem graça e puxei a barra do vestido que me pareceu curto naquela hora.