Na minha janela não passa cachorro caçando lixo, nem cavalo, porco, vaca, bezerrinho indo pro curral. Não se vê mulher carregando roupa na bacia ou homem com enxada no ombro, menino descalço na bicicleta, galinha ciscando. Da minha janela não alcanço as montanhas, a mata, o café, a cerca de arame farpado com um retalho engastalhado nela. Na minha janela a mangueira não madura, a poeira não levanta, o varal não balança, a porteira não bate. Da minha janela não ouço o rio, o pio de passarinho, o silêncio profundo. Não tem beiral na minha janela, nem cortina de renda, nem tranca emperrada. Da minha janela eu não espio quem está chegando. Não debruço para conversar à toa. Não aceno para despedir. A vida não passa na minha janela. Só passa nuvem e avião.