Recém separada, ela encontrou um cara que namorou na juventude e ele a reconheceu no ato. Achou que era um sinal. Foi no balcão de frios do Pão de Açúcar num domingo de manhã, outro sinal. “Quem compra frios no supermercado a essa hora? Almas gêmeas”, concluiu. Ele vestia bermuda e camiseta para fora da calça, um detalhe determinante em homens na faixa dos 5o/60 anos. “Barriga absolutamente aceitável”, observou generosa. Contra as suas expectativas, que se deu conta de que estava de cabelo sujo, moleton e crocs “e  já não sou menina prá ficar engraçadinha nessa situação”, ele mostrou-se interessado. Trocaram telefones e combinaram um almoço no dia seguinte. Ela estava nervosa, há anos não saía com outro homem que não fosse o marido e não tinha certeza de que haveria tempo suficiente para se preparar, mas “a vida estava mandando sinais que eu não poderia desconsiderar”.

Não falaram sobre trabalho na curta conversa de menos de um quilo de frios fatiados. Em casa, correu para o facebook tentar saber se não seria esquartejada e colocada numa mala já no primeiro encontro desde a separação. O perfil dele era discretíssimo, advogado, poucos amigos, poucas fotos, sempre desacompanhado. “Um sinal positivo,não é?” Mesmo concluindo que ele não era um aficcionado, fez um “face lifting”, pequenos acertos no seu próprio perfil especialmente para a ocasião. Consultou as amigas diversas vezes para saber que fotos deveria manter, quais as que a envelheciam ou a engordavam: “Meu ex era péssimo nisso, acho que fazia de propósito para ninguém se interessar por mim”, que amigos “agregavam”, quais os que “entregavam” e por aí vai.
Sobre a sua formação e experiência profissional, achou melhor pegar leve para não assustá-lo. “Ele era maluquinho quando o conheci, mas pela armação dos óculos parece que evoluiu para conservador. Esses preferem que a mulher fique`a sua sombra, o que tudo bem, né? Já trabalhei tanto, posso ser dondoca agora”. Formada em engenharia na Poli , PHD em gestão urbana, é uma referencia na área de sustentabilidade.  Na onda dos eco-tudo, leva essa preocupação `as ultimas consequências, não toma banho demorado, consulta os sites das empresas antes de consumir seus produtos, é voluntária em organizacões ambientais, vegetariana, adepta de comida natural e orgânica. Limpou tudo isso do perfil , deixou apenas o ambíguo  “interesse em recursos naturais”.
No dia seguinte,  levantou-se `as 6h, foi ao salão, depilou todos os pelos depiláveis do seu corpo, fez mão, pé, sobrancelha, escova. Teve um insight, correu até o shopping e comprou um CD da Bebel Gilberto que eventualmente seria “a nossa trilha”. E partiu para o escritório dele onde haviam combinado de se encontrar. Na entrada, tropeçou na cabeça de uma onça estendida num tapete exótico. ” Achei que era uma brincadeira. Um sinal positivo porque eu também acho engraçado provocar as pessoas”. Na ante-sala havia um enorme urso de pé  com a boca escancarada e uma placa de WELCOME pendurada no pescoço. Sentiu um aperto no peito. Na sala dele, as pernas fraquejaram  com a visão estarrecedora de dezenas de cabeças de animais com chifre, sem chifre, olhos brilhando, olhos sem vida, toda uma selva decapitada e pregada nas paredes ao lado dos diplomas de Direito e  licenças de caçador. Para ganhar tempo e recobrar os sentidos, disse que queria tirar uma foto do lugar ” tão surpreendente” e se escondeu atrás do celular. Ele sorriu orgulhoso e ajeitou a cintura da calça, agora com a camisa por dentro e uma barriga enorme bem marcada. Ela ainda conseguiu aceitar o copo d’agua e saiu tropeçando nas carcaças, peles e couros distribuídos pelo ambiente. Anunciou que estava passando mal, que a pressão tinha caído e sem dar chance para que ele a alcançasse, fugiu dirigindo seu carro elétrico pela Vila Madalena e passou, sem perceber, pelo sinal vermelho.