A filha, diferente no ritmo, no tempo das coisas, contemplativa, analítica. Uma aquariana, até onde isso explica. Eu, ansiosa, inquieta, impulsiva. A gente se ajustando ou não se ajustando dia a dia. Ela silenciosa e calma. Eu falante e agitada. Ela melhor do que eu. Um dia da sua infância em Nova York, vou buscá-la na aula de escultura, um programa extra classe que desenvolvia experiências estéticas com o uso de materiais reciclados. Aos cinco, seis anos, concentrada no projeto como se nada mais houvesse, tentava montar uma peça com diversos objetos encaixados uns sobre os outros. Na base, apoiando aquela enormidade, um canudinho plástico. A escultura multiforme era claramente muito maior e mais pesada do que o canudo que ela apertava com a mãozinha. Atravessei o momento e em descompasso com a sua natureza, questionei o raciocínio, mostrei o absurdo da situação, a impossibilidade de colocar a geringonça de pé. Ela continuou séria e calada olhando para o canudo, a mãozinha agora devolvendo-o para a mesa. Dias depois, volto à escola para a mostra de encerramento do curso. Os trabalhos expostos com os nomes das crianças. Ao lado da plaquinha Ana Luisa, havia uma grande estrutura engenhosamente montada com sobras e partes de objetos de papelão, plástico e madeira. Segurando tudo estava o canudinho plástico, de alguma forma firme o suficiente para ser o único pilar da peça. Eu era jovem e arrogante, mas não cega. Li a mensagem e meu coração se apertou naquela hora por ela, por nós, pela delicadeza que a vida exige e que a gente não sabe.

Tomie Ohtake, Pampulha, BH

Tomie Ohtake, Pampulha, BH