O livro, encomendado do sebo virtual, chegou cheio de anotações. Feitos a lápis numa caligrafia redondinha e caprichada que eu arriscaria pertencida a uma estudante mineira em curso de literatura, os registros reproduziam a fala do professor. Aborreceu-me um pouco a análise de texto subserviente à formalidade das regras e nomenclaturas, a oralidade, a estrutura e o estilo, intrometidamente nos espaços entre palavras inventadas com a liberdade que Guimarães Rosa a custo conquistou. As originalidades grifadas. Mas foi só. Em Corpo de Baile, não seria o lápis da menina a me afastar do meu propósito, “me desafligi” e toquei.
Não me incomodo com isso, ao contrário, livro manchado, sujo, com orelhinhas dobradas, rabiscado, revela o percurso da sua história pessoal. Sinal de que foi desejado e carregado para todo lugar, no mínimo, manuseado pelo leitor. Corpo sem marcas é corpo não experimentado. Gosto de imaginar o café que pingou na página aberta na mesa da copa, o vinho esparramado no braço do sofá, o chocolate derretido na mão distraída, a água respingada da piscina no papel agora ondulado.
Muito bom emprestar livro para quem tem prazer na leitura. Como minha cunhada, que é uma leitora voraz e exigente, mulher apaixonada mas não cega de amor, que compartilha o exemplar com meu irmão, outro degustador dedicado, e me devolve com comentários decorrentes das discussões do casal sobre a obra. Ela mora numa cidade pequena do interior, trabalha numa biblioteca pública e faz a maior ginástica para ter em mãos os livros que quer. Quando me visita, vem sempre com uma sacola grande e se põe em frente à estante para a pescaria mais difícil do mundo naquele oceano de títulos, quase todos já conhecidos dela. O prazer é recebê-los de volta com as observações mais inteligentes e sensíveis que, muitas vezes, me devolvem ao que já li e não vi. Num Natal há alguns anos, presenciamos sem muita surpresa uma cena em que ela proibia os filhos, ávidos mini-leitores, de mergulharem numa caixa de livros herdados dos primos mais velhos: “Nada disso! Vocês só vão ler lá em casa. Podem guardar tudo com os brinquedos que o Papai Noel trouxe!”
No reverso, os livros carregam uma mensagem de quem os lê. Os meus tem fotografias esquecidas dentro, às vezes uma florzinha secando, um bilhete de filho, de amigo, memórias aleatórias que compõem e completam uma vivência enquanto ela durar. De tanto gosto, já me peguei beijando um livro maravilhoso e fazendo carinho nele de gratidão. Outros, a maioria desiluminada, é esquecida ereta, em formação, geminada múltiplas vezes numa colagem vertical avolumando a prateleira.
Meu pai, que sempre acrescenta ao já existente, inventou de marcar os livros com um elástico esticado entre as páginas correndo pela lombada afora e, dependendo do tamanho, querendo arrebentar. A prática é inteligente, mas não tem muitos seguidores. Nessa matéria de valor literário, não faz média e dependendo da escrita devolve com elástico e tudo. Foi o que fez quando, considerando sua relação estreita com as artes plásticas, dei-lhe de presente a biografia de Chagall e pouco tempo depois ele me devolveu com a consideração de que não gosta da sua pintura, “se faz de ingênuo”, portanto, não tem interesse na sua trajetória pessoal.
Sem nunca ter um marcador à mão, minha filha, a Manuela, enfrenta a jornada sem bússola nem direção. Perde-se pelo caminho, volta diversas vezes ao que já conhece e dá saltos no curso dos fatos. Talvez por isso prefira leituras menos lineares e mais poéticas, escritas em que a ação é substantiva e onde cada palavra vale uma experiência sensorial. Isso é a essência dela, o caos é seu trampolim intuitivo para o alvo.
Uma tarde, pego a Luisa, a irmã, com o Mia Couto aberto no colo, as lágrimas correndo pelo rosto “entre o desejo de ser e o receio de parecer, o tormento da hora cindida”, molhando a poesia sul-africana. Me emocionei e tive orgulho da emoção dela.
A passagem do tempo se dá nessa contagem também, a das páginas viradas. “Não há de quê”, respondi ao amigo que levou agradecido a coleção de livros infantis aposentada por tempo de serviço. Na saída, ainda puxei de volta um deles como se o gesto resgatasse uma infância inteira que se ia ali. Era o nosso preferido e tinha muita história para contar.