Abri a porta e a maca me cumprimentou: boa tarde, dona Marina. Detrás dela, saiu a Poliana, baixinha, gorducha, uniformizada de branco, suada a tal ponto que não me permitiu beijá-la. A mão igualmente molhada despertou dúvidas sobre a decisão de aceitar a massagem, um vale presente de Natal da amiga. Não estou acostumada, mineiro não acha graça nessas intimidades com estranhos. Apontei o quarto e a maca caminhou arquejante de tênis brancos. Mesmo com as costas doendo, ofereci para ajudar, mas ela não aceitou e enquanto estendia um lençol de papel explicou que normalmente as macas são menores e mais leves, mas justo na sua vez só sobrou o modelão antigo. “Todo fim de ano, o movimento aumenta demais. Esse, em especial, por causa da crise, todo mundo travou.” Esparramou óleo, fez movimentos circulares, beliscou com as pontas dos dedos e anunciou que ia subir na maca comigo para usar os cotovelos como se fosse a coisa mais natural do mundo. Fingi que era dor a dor que deveras sentia. Pedi para encerrar.
No dia seguinte, mais entortada, arrastei-me para o quiroprata que me indicaram para terminar o serviço. Nunca tinha recorrido a um. Pensei em quiromancia e achei que podia ser uma saída magica. A pressão era quase insuportável, os presentes, a ceia, as contas, as malas, um esquema para cuidarem das plantas e dos gatos. Quem desentortaria minha vida? Cheguei atrasada, o homem estava parado ao lado da cama, braços cruzados, seríssimo. Mudo. Eu, ansiosa, disparada a explicar o transito e as tarefas injustas de uma mulher no Natal. Ele olhando para mim, calado. Achei que ia me agredir. E ia. Mas não ainda. Perguntou se eu estava com medo dele ou se era timidez abraçar a cadeira daquele jeito. E esses ombros para cima? Larga a bolsa e me conta o que se passa com você. Eu disse que tinha acabado de dizer, uai: “É o fucking Natal, você é homem, não entende.” Sorriu com o ar blasé que os seres espiritualizados adoram nos jogar na cara quando estamos descompensados. Descrevi minha sensação enquanto me deitava. “Estou virando a bruxa da Branca de Neve, lembra? Não consigo me esticar. Como se um elástico gigante puxasse as extremidades e…” Não terminei. Apertou um ponto qualquer perto da coluna, achei que ia desmaiar de dor. Gemi com vontade de chorar e ele garantiu que se eu aguentasse saía nova. Fiz as contas e pensei que se me tirasse uns onze, doze anos, sim, valeria a dor. E então veio uma pressão demorada com o dedão debaixo dos braços, o sofrimento excruciante e o comando: Coragem! Abraça Jesus! Não tive tempo de mandá-lo para o inferno, partiu para a outra extremidade e torceu meus pés para dentro, à Curupira. Achou meu maxilar rígido, fez ganchos com os dedos, meteu-os lá dentro da boca puxando as bochechas para cima como se fosse me pendurar nas suas mãos. Perguntou se eu confiava nele. “Tenho outra alternativa?” Segurou minha cabeça com as duas mãos e com um movimento forte e súbito girou-a como a menina do Exorcista fazia no filme. Ficou decepcionado porque não estalou. Quando terminamos a sessão, perguntou como eu me sentia. “Com muita raiva de você”, respondi. E saquei minha arma letal. Avisei que era escritora e que me vingaria dele assim que saísse dali.