A mulher ao lado esfrega as mãos particularmente magras e aperta uma contra a outra numa maçaroca para, em seguida, esticar e estalar os dedos. Depois, se abraça como se sentisse frio. Não sentia. Estava de vestido de alça. Dobrou e rearranjou varias vezes o casaco no colo. E, se quisesse, fechava a saída do ar-condicionado. Quando todo mundo fez descaso, ela esticou o pescoço no limite para acompanhar atentamente as instruções de segurança da comissária de bordo. De vez em quando, checava o cinto, dava um tranquinho no fecho com aqueles dedos finos dela. Estava espremida na poltrona do meio e num primeiro momento achei que poderia sentir-se sufocada, sem ter para onde correr se precisasse. Depois me veio uma sensação de aconchego que nós duas, eu na janela e a outra mulher no corredor, estaríamos garantindo a ela.
Tive pena, cúmplice daquela situação que eu conhecia tão bem. Por anos, tive pavor de viajar de avião. Minha terapeuta explicou que pânico mesmo é quando você não consegue voar. Eu ia e vinha de Nova York o tempo todo. Suando, sem ar, o corpo tão enrijecido que quando chegava do outro lado não podia puxar a mala. Sacava da bolsa o livro sensacionalista comprado no aeroporto, o assassinato do Kennedy já tive em duas ou três versões, até cansar de reler repetidamente a mesma frase sem gravar uma palavra. Rezar não adiantava, a fé não chegava tão alto. Não podia, como me sugeriram e até me presentearam, tomar um remédio desses que desmaiam a gente assim que se senta. Uma amiga tomou um comprimido tão forte que teve que ser carregada e acordou no pronto-socorro do aeroporto quando o avião não levantou vôo por problemas técnicos. Eu tinha filhas pequenas e não podia comer, nem ir ao banheiro, que dirá dormir. Chegava tão acabada que, uma vez, na Imigração do aeroporto Kennedy, uma oficial daquelas que metem medo pelo tamanho, pela voz e pela dureza, me recebeu com um “Oh, poor woman” que me fez chorar. A coisa só melhorou quando me dei conta de que, felizmente, não tenho controle sobre o desempenho do avião ou sobre quase nada nessa vida. Hoje, quando muita gente importante saiu do armário confessando seu mal-estar nas alturas, eu solto o corpo e deixo o piloto me levar.
Não sei se foi o copo d’água que ela bebeu aos golinhos, quase errando a boca que me convenceu de que eu devia, que era meu dever naquele momento tentar amenizar o sofrimento dela. Perguntei solidária: Você tem medo de avião? Ela virou-se para mim e devolveu: Não. Por que? A resposta monossilábica foi uma surpresa grande e eu, piorando a situação, expliquei: Por nada. É que eu vi você mexendo as mãos de um jeito que parecia. Ela não disse mais nada. Olhei para o céu lá fora e falei baixinho para mim mesma: Às vezes a pessoa tem, uai.