Estávamos sentados no banco da impressionante catedral de Guadalupe. Eu e o menino mexicano. Percorríamos a construção lentamente com os olhos, procurando dispender tempo em cada detalhe. As colunas torcidas, os arcos perfeitos, a luz atravessando os vitrais e explodindo nos lustres e o teto, perto do céu, com figuras aladas pintadas à mão. Que escada chegaria até lá? o menino se pergunta. O artista trabalhava deitado? Não lhe doíam as costas? eu querendo adivinhar. Anjos e passarinhos voando pela nave dourada. Nós dois torcendo as cabeças, acompanhando o movimento. Os santos e suas histórias esculpidas com dramaticidade, sangue, dor, sacrifício em tamanho original. Os olhinhos dele se abrem, as pernas chacoalham no ar, quer comentar com a mãe, mas ela é dura e fervorosa, faz com que se cale com um gesto. Ele atende. Sinto mais tristeza do que medo. A gente humilde submetida a uma autoridade inquestionável. Eu tenho licença, faço malcriação, sou desobediente. Não o menino ou a sua mãe. Penso em minha mãe também, só para não desacompanhá-lo. À nossa frente, uma senhora com traços índios e véu na cabeça reza com um pirulito na boca. Um jovem obeso e sujo, com visíveis problemas mentais, senta-se ao meu lado querendo conversar e não sei como, toma a minha mão e a beija. Digo que meu marido ficará muito bravo e ele se vai. O menino testemunha assombrado. No corredor central, uma loira de cabelos cacheados, corpo curvilíneo, vestido colorido justo, ajoelha-se e segue assim, arrastando-se pela passadeira vermelha e rezando até o altar. Os fiéis adivinhando os pecados nos joelhos ralados dela. O menino chama a mãe novamente, bate no peito dela, cutuca, quer saber. Ela continua impassível na conversa com Deus e perde a nossa comoção. Paciência, colega, eu digo, o arrebatamento também passa. Um dia você deixará de ser menino e eu, com sorte, me tornarei uma mulher de fé.