Duas mulheres estão pescando. As varas erguidas contra o céu azul. Pernas descobertas escorrendo entre as pedras no pontal. A da esquerda usa um chapéu de abas curtas, a trança lhe escapa pela nuca. A outra, cabelos brancos bem cortados, enfrenta o sol com galhardia e óculos escuros. A cesta ao lado esperando os peixes. Estão rindo de alguma coisa que pode ser o fato de não pescarem nada há horas. Ou de um bolo que embatumou pouco antes de sairem de casa. O olhar para o horizonte parece buscar o fio da conversa. Lembram-se de alguma coisa antiga? Um desencontro, uma viagem, a letra de uma musica? Um nariz é pequeno de perfil. Os olhos se apertam na risada. Um brinco colorido chacoalha ao vento e brilha. Desnivelados, os ombros não se tocam. Estão tão juntas que dão fé que serão para sempre. Vão pescar um único peixe, preso nos seus anzóis, uma só boca, uma só cauda a se debater na cesta. Vão limpá-lo. Ombro com ombro na pia da cozinha. Deus ali. A travessa prateando. Vão devolvê-lo ao sal e assá-lo. Vão comer a carne branca e macia comungando a aventura cotidiana do fundo do mar até a mesa. Sem procurar significado ou relevância no acontecimento formidável que se dá ali. O milagre.