Perdi o último par de óculos. O terceiro. Num eu pisei e destruí as suas hastes. O outro está tão torto no rosto que a terapeuta me obrigou a tirá-lo durante a sessão para não distrair a atenção dela. Não vou mandar fazer novos agora. Tenho medo de ficar me esfregando em armações contaminadas. Já procurei em toda parte, nos lugares mais improváveis, sempre achei tão triste a pessoa que não enxerga, tateando atrás dos óculos! Não sei exatamente quantos graus e que tipo de deficiência tenho. Não são números altos, tenho alguma dificuldade para ler e ver as coisas com boa definição de longe. Ainda assim, como dos demais confortos, fiquei dependente deles. Quando entrevistei Caetano Veloso numa homenagem que fizeram no seu aniversário de 50 anos, no Metropolitan Museum, em Nova York, ele falou sobre a falência do corpo e deu o exemplo: A gente se acostuma com tudo, acaba achando bom o que nos tira o mal-estar. Sempre tive horror à idéia de usar óculos. Pois hoje, quando me sento na poltrona, saco os óculos da caixinha, ponho e leio, sinto um prazer enorme!
Eu fui feliz durante o curto espaço de tempo em que fiquei sem enxergar direito. Passada a insegurança inicial, percebi que o mundo melhora muito quando está fora de foco. Não vejo a sujeira da casa, nem as minhas marcas no rosto, as flores murchas no vaso, as unhas grandes dos gatos, as más notícias no computador. A realidade é implacável, não tem negociação. Por uns instantes, tirei vantagem de um mundo ideal. Abri um livro do Borges que não exigia leitura, só fotos e desenhos, ele retratado em imagens quando já não enxergava mais. Passeei pela casa achando as coisas bonitas nas estantes. A grosso modo, são. De outra forma, vejo rabinhos e pescoços de bichos quebrados, livros fora do lugar, fios aparecendo, objetos descascados, perdendo a cor. Nem troquei a roupa de cama fazendo que estava limpa. Comi a banana de casca escura. Agora, meio a contragosto, encontrei os óculos e só por isso estou escrevendo. Descrevendo as pequenas imperfeições à minha volta. Na minha pele, dentro de mim. As doenças e a feiúra do mal. Observando de perto o todo errado no mundo. Nunca achei que miopia fosse opcional. Talvez eu perca os óculos novamente.
Beatriz Ribeiro de Moraes, Matthew Shirts e outras 177 pessoas
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