Por insistência das amigas, adentrou o Tinder. Já tinha espiado de fora, aquele não era lugar para uma mulher disponível há tão pouco tempo. Devia cumprir o luto da separação por, pelo menos, um ano, uma conta que estabeleceu a partir da média da maioria das mulheres largadas, versus a raiz quadrada de uma ou outra mais assanhada, noves fora a opinião da mãe e das tias. Cedeu com reservas. Vou só para conhecer, sem compromisso de ficar.

Sozinha em casa, ligou na novela para disfarçar o interesse, digitou o endereço e seguiu, pé ante pé. Correu os candidatos com o coração aos pulos com medo de estar sendo observada por Deus, de haver uma câmera no computador registrando sua vontade, de um filho dar flagrante.
Desenvolveu critérios instintivos. Não queria foto de homem com a mãe, com filho, com cachorro, com carro, barco ou moto. É achar que a gente é burra, não caio. Foto na piscina de casa, na churrasqueira, na cozinha com pano de prato no ombro, ela descartava. Foto usando óculos escuros, nem pensar. Quero ver a cara do malandro frequentador dessa joça. Não aceitava ninguém formado em faculdade com prefixo Uni. Sou dessa opinião, diga-me que escola frequentaste e te direi quem és. Podia até ser leonino, convencido e vaidoso, mas preferia homem de touro por razões óbvias. Gêmeos, signo do ex, só com carta de recomendação. Nome começando com W e ou terminando com N estava fora. Acho cafona. Descobriu que era exigente quanto à aparencia. Não valia barriga grande, perna fina, dentes ruins, barba até o peito, peito sem pelo ou muito peludo. O bairro era determinante. Não sou mulher de atravessar a cidade por causa de homem.
Ali ficou ciscando, rodeando, talhando a companhia perfeita, até que um dia, dividiu um uber pool com Wilson, professor da Unip, que morava na zona leste onde ela ia consultar a taróloga a cada seis meses e ao Tinder nunca mais voltou.