Cutucando as plantas e falando sozinha. Comemorando um broto surgindo, sacando fora as folhas secas, avaliando a muda que veio da fazenda, com pena de tê-la tirado da terra boa e larga. Uma conversa comigo mesma de carinho e reclamação, organizando a tarefa em voz alta, sabendo-me acompanhada. Pensei no Geraldo Vandré, que encontrei há muitos anos quando fui ao Campo de Marte fazer uma matéria sobre a escola de pilotagem. Alguém me apontou o Vandré lá no fundo, cabeça branca, macacão de mecânico, metade do corpo enterrado num avião pequeno, cutucando o motor. “Ele vive aqui, fica mexendo em motores velhos e falando sozinho. A gente deixa porque tem respeito pela história dele.” Cheguei perto, mas não tive coragem de me apresentar. Para não dizer que não falei das flores era o chavão que ele não precisava ouvir e do qual talvez até fugisse. Nem que quisesse poderia afastá-lo daquele mundo onde me pareceu absolutamente à vontade. Conversando com os motores como eu com as plantas. Deixa quieto.