Dona Rejane veio cozinhar. Deixar a provisão congelada para os próximos dias. Liga o radio e fala com Fred, o coelho. Baiana simpática e cheia de atitude, tem autoridade para fazer a carne amaciar acolhendo o recheio de cenoura e ervas, o feijão render-se na medida certa ao louro, ao bacon e até ao hortelã. Na malícia, permite à farinha de rosca roçar de leve o bife para a milanesa e ao pimentão fazer uma graça para a carne moída. Muito alho, cebola e pimenta. Diz que limpa e guarda tudo de tal forma que da sua passagem por aqui fique só o cheiro no ar. Delícia, metade do sabor é cheiro. Me pede colher de pau. Não tenho. Panela de pressão. Não tenho. Espremedor de batata. Saio para comprar. Para me vingar, digo que não posso com coentro. Matei a baiana, penso. Ela me olha com pena. Uma mulher sem colher de pau nem tempero. Começo a explicar, como alguém pego no pulo fazendo coisa errada, que tenho também uma casa em São Paulo e que  as coisas da Ilhabela estão se perdendo entre lá e cá, e que aqui no Rio me faltam acessórios, mas ela já não ouve. Volta para o radio e a conversa com o Fred. Não mereço sua atenção dirigida agora para uma panela grande onde a carne, chã de dentro, picadinha e lambuzada de páprica, espera pelos legumes sem pressa. Fico de longe espiando os movimentos decididos dela e a invejo, não no talento ou na experiência, mas na plenitude do momento. A interação perfeita de uma pessoa com a sua atividade. A segurança da vocação e do destino. Ela mete a colher, prova o caldo na palma da mão e a limpa no avental. Tampa e segue em frente.