Entrincheirada entre dois alemães no avião a caminho de Berlim. O da direita, assiste Polonia e Portugal, o da esquerda, os odiados do Tarantino. Meu filme, escolhido na opção comedia romântica, sai da piada ingenua, faz uma curva acentuada e mergulha sexo adentro. Corpos nus e suados esfregando-se na tela, eu nem tão romântica nem achando engraçado, constrangida entre os dois desconhecidos. Tenho vergonha de continuar assistindo e me falta coragem para desligar. Com o canto do olho checo a atenção dos vizinhos, aparentemente entretidos, braços cruzados, imóveis, germanicamente circunspectos. Nenhum deles tirou o sapato durante a noite. Entendo o recado, nada de intimidade. Sem mexer a cabeça, posso espiar o sangue jorrando do pescoço atingido à queima roupa de um lado, o jogo empatando de outro. Imagino que eles também possam ver o que se passa à minha frente, se quiserem. Faço que não estou assistindo ou que estou, mas sem interesse. Passo um creme nas mãos. O casal agora transando no tapete. E em seguida no sofá. Decido assumir. É sexo, sim. Qual é o problema? Nunca viram? Nunca fizeram? Cristiano Ronaldo abre uma jogada espetacular, a câmera fecha no sorriso plastificado dele, e Samuel Jackson mete mais dois tiros na cara de alguém dentro do cabana gelada. O alemão da direita mexe-se na cadeira, fico apavorada com a perspectiva de que ele veja o que eu vejo, que me condene mesmo na opção comédia romântica. Levanta-se e sai. O da pancadaria sanguinária cochila apesar de cabeças explodindo. Aproveito para desligar rapidamente a TV. Finjo que estou dormindo até dormir. Nem bom dia no café da manhã.