Sou Marina de pai e mãe. A avó Marina, de São Paulo e não a avó Marina de Guaxupé, era casada com um médico apaixonado por ela. Dizia-se cardíaca e carregava o atestado do meu avô embora, que se saiba, nunca tivesse sofrido nada do coração e nem tenha sido essa a sua causa mortis. Quando era contrariada nas suas vontades, fingia desmaiar em decorrência da doença. Criança, presenciei quando ela disse que tinha gostado demais do novo gato siamês da filha e que queria levar o bichano para casa. Minha tia recusou-se a atender o desejo e a avó jogou-se no chão para só acordar nos braços cúmplices do meu avô. Tomava café na cama diariamente levado por ele. Esse e mais tantos mimos invejáveis. Muitas vezes comiam de mãos dadas. Ele era canhoto, o que facilitava o gesto romântico. Mais tarde, anunciou que devido à sua condição de cardíaca não deveria receber más notícias. E dali para a frente, estávamos proibidos de comentar os fatos negativos da família perto dela, mortes, divórcios, doenças, perdas de emprego, desavenças, qualquer questão que a desestabilizasse. “Não me falem de problemas” era um mantra que virou piada com o tempo. Primeira neta, afilhada e confidente dela, eu acreditava que se fechasse os olhos e ouvidos para a realidade, não sofreria, não morreria do coração. E assim segui, com menos sucesso do que ela, já que eu não tinha um atestado que evitasse o contato com fatos dolorosos, fazendo-me de boba quando o indesejado apontava na minha direção. Fui afinando um método de defesa aparentemente perfeito, uma capa à prova de dor me cobrindo, decisões tomadas à revelia das suas consequências, as consequências negadas com convicção, uma mulher bomba saltitando pela vida. Adolescente, acordei um dia cega, sensível ao menor foco de luz, personagem de Woody Allen. Fui levada ao neurologista que ouviu da minha mãe que eu não tinha passado por nenhum trauma emocional recente. Deitada na salinha ao lado, pensei em dizer para eles e para mim mesma que estava em carne viva com o fim de um namoro intenso. Uma decisão que tomei com medo de me afogar de tanto amor e que agora me cegava de tristeza. Mas não o fiz nem ali nem no caminho para casa, sentada no carro ao lado da minha mãe com os enormes óculos escuros dela. O episódio ficou escondido entre outros para ser reaberto só muitos anos depois, quando a mulher bomba explodiu ferindo-se mortalmente e de raspão aos que a cercavam. Doeu. Morri eu, pouco depois, a avó também. Hoje jogamos Buraco como nos velhos tempos, ela escondendo cartas, meu avô fazendo que não vê, eu e minha irmã divertidas. Pisco maliciosa para a avó. Uma vida inteira para entender o jogo.